sexta-feira, 20 de outubro de 2017

[Cartas Famosas] Para Scottie, de F. Scott Fitzgerald


Ainda no mês das crianças, não poderíamos esquecer de postar mais uma edição do Projeto Cartas Famosas. Desta vez, trazemos a carta do famoso escritor americano F. Scott Fitzgerald, autor de o clássico O Grande Gatsby ou ainda o conto O curioso caso de Benjamin Button. É uma carta linda, sublime e meiga. Talvez os conselhos que todos os filhos, crianças ou não, deveriam seguir. 


Carta para a Filha 

Scott Fitzgerald



Querida filha:

Preocupo-me muito com suas obrigações. Mostre-me alguma prova das suas leituras em francês. Estou satisfeito por você estar feliz, mas não acredito muito em felicidade. Tampouco acredito em tristeza. São coisas que vemos no teatro, no cinema ou nos livros; essas coisas não nos acontecem na vida real.

Tudo em que acredito na vida são as recompensas à virtude (de acordo com os talentos de cada um) e os castigos por deixar de cumprir com as obrigações, que custam o dobro. Se existisse na biblioteca da colônia de férias um livro assim, você iria pedir à Sra. Tyson que lhe mostrasse um soneto de Shakespeare onde aparece esse verso: Lírios apodrecidos têm cheiro pior do que o das ervas daninhas.

Sem pensamentos hoje, a vida parece o simples relato de um caso publicado no Saturday Evening Post. Penso em você, e sempre de forma agradável: mas se me chamar de "Pappy" outra vez, vou levar o Gato Branco para fora e dar-lhe uma boa surra, seis palmadas para cada vez que você for impertinente. Alguma reação quanto a isso? Vou preparar a lista de comportamento na colônia. Tolices, concluirei. 


Coisas que merecem atenção:
Cuide da coragem
Cuide da higiene
Cuide da eficiência
Cuide da equitação . . .


Coisas que não merecem atenção:

Não ligue para a opinião dos outros
Não ligue para bonecas
Não se preocupe com o passado
Não se preocupe com o futuro
Não se preocupe com o seu crescimento
Não se preocupe se alguém passar à sua frente
Não pense em triunfar
Não pense no fracasso, exceto se for por sua culpa
Não ligue para os mosquitos
Não ligue para as moscas
Não ligue para os insetos em geral
Não se preocupe com os pais
Não se preocupe com os meninos
Não se preocupe com as decepções
Não se preocupe com os prazeres
Não se preocupe com as satisfações
Coisas para pensar:
Qual é o meu objetivo verdadeiro?
Como me classifico em comparação às meninas da minha idade quanto a:
a) Meu desempenho na escola?
b) Compreender realmente as pessoas e ser capaz de me relacionar bem com
c) Estar fazendo do meu corpo um instrumento útil ou negligenciando este aspecto?



Com amor e carinho.

(RS)

__________________________


Sobre o autor da carta:


Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940) estreou na literatura em 1920 com o romance Este lado do paraíso e publicou, entre outros, O grande Gatsby (publicado pela Penguin/Companhia das Letras), Suave é a noite e All The Sad Young Men. Postumamente foram publicados o romance inacabado O último magnata e The Crack-up (1945), uma seleção de ensaios, notas e cartas editada por Edmund Wilson. Os problemas com o alcoolismo e a degeneração mental de Zelda, sua mulher, mais tarde o afastariam da literatura. Estava quase esquecido, trabalhando em Hollywood, quando sofreu um ataque cardíaco fatal em casa, em Los Angeles.



 
CURIOSIDADES:
  • A carta na língua original pode ser lida aqui.
 

FONTE:


  • BENNET, William. O livro das virtudes. Selecionados e adaptados da ed. americana por] Luiz Raul Machado. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1995 (p. 163-164)
  • LP&M Editora Nova Fronteira

Itaú Cultural e Oceanos anunciam lista dos finalistas da edição 2017


Itaú Cultural e Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa
 anunciam lista dos 10 autores finalistas da edição 2017


Das 51 obras semifinalistas, dois livros de poesia, dois de contos e seis romances passaram para a etapa final, na qual concorrem seis brasileiros e quatro portugueses, destacando mais uma vez a importância do prêmio na integração da literatura entre os países de língua portuguesa; os ganhadores serão conhecidos em cerimônia no dia 7 de dezembro



O Itaú Cultural e Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa anunciam nesta quarta-feira, 18, a lista dos 10 autores que irão disputar a final da edição 2017 da iniciativa. A lista completa pode ser acessada no site http://www.itaucultural.org.br/oceanos2017 (ver os nomes dos livros classificados e os perfis de seus autores abaixo). A seleção foi realizada nesta terça-feira 17, por um júri formado por dois portugueses (a poeta Ana Mafalda Leite e o crítico literário António Guerreiro) e oito brasileiros (as ensaístas Beatriz Resende, Eliane Robert Moraes e Mirna Queiroz, a escritora Maria Esther Maciel, a tradutora e editora Heloisa Jahn e os poetas Eucanaã Ferraz, Ricardo Aleixo e Sérgio Alcides). Os 10 eleitos foram escolhidos a partir de uma lista de 51 semifinalistas.

O Oceanos é realizado em parceria com o Itaú Cultural, que desenvolve a governança do prêmio e a tecnologia que permite que os livros circulem digitalmente entre curadores e jurados. Já o Itaú Unibanco participa como patrocinador ao lado da CPFL Energia, do Instituto CPFL e do governo de Portugal, por meio do Fundo de Fomento Cultural Português. A curadoria desta edição está a cargo da jornalista portuguesa Ana Sousa Dias e dos brasileiros Manuel da Costa Pinto e Selma Caetano.

As obras finalistas compreendem dois livros de poesia portuguesa, dois romances portugueses, quatro romances brasileiros e dois livros de contos brasileiros (um deles mesclando narrativa, dramaturgia e poesia).

Dentre os autores finalistas, três portugueses (Helder Moura Pereira, Ana Teresa Pereira e Ana Margarida de Carvalho) nunca foram publicados no Brasil em livro próprio, e dois brasileiros (Victor Heringer e Silviano Santiago) nunca foram publicados em Portugal. Além disso, todos os livros tiveram edição apenas em seus países de origem. Esses dados mostram como o Oceanos contribui para promover o conhecimento recíproco entre as cenas literárias lusófonas e como o prêmio pode desempenhar um papel de radar da produção contemporânea.

Os membros do júri destacaram, consensualmente, que a lista de semifinalistas, embora tenha sido resultado de uma avaliação pautada por critérios estritamente literários, acabou por apresentar uma participação igual de mulheres e homens. Os jurados assinalam, ainda, que a lista equilibra autores com trajetória e obras consagradas (incluindo ganhadores do prêmio em edições pregressas, como Silviano Santiago, Sérgio Sant’Anna, Elvira Vigna e Bernardo Carvalho) e autores surgidos recentemente (como Victor Heringer ou Ana Margarida de Carvalho), além de apresentar tanto obras de caráter mais experimental quanto narrativas e poemas que aprofundam gêneros e dicções tradicionais.

As 10 obras serão agora avaliadas pelo Júri Final, composto pelos mesmos membros do Júri Intermediário, que escolherá os quatro vencedores do Oceanos 2017. Os livros ganhadores serão divulgados em cerimônia no dia 7 de dezembro. O vencedor receberá R$ 100 mil; o segundo colocado, R$ 60 mil; o terceiro, R$ 40 mil e o quarto, R$ 30 mil, sendo que livros de diferentes gêneros literários concorrem ao prêmio entre si.

Neste ano, a premiação passou a contemplar obras publicadas em todos os países lusófonos, atingindo a cifra histórica de 1.215 livros inscritos em sua primeira fase – todos eles com primeira edição em 2016. As obras foram avaliadas por 50 jurados brasileiros e 15 portugueses, que também elegeram entre seus membros os dez integrantes dos Júris Intermediário e Final. Das 51 obras classificadas para a etapa intermediária do prêmio, 31 eram de autores brasileiros, 19 de escritores portugueses e uma de autor angolano.


Saiba mais sobre os 10 autores finalistas:

Ana Margarida de Carvalho nasceu em Lisboa. Licenciada em Direito, tornou-se jornalista, assinando reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prêmios do jornalismo português. Filha do consagrado escritor Mário de Carvalho, publicou seu primeiro romance, Que importa a fúria do mar, em 2014, vencendo o Grande Prêmio de Romance APE. Ninguém pode morar nos olhos de um gato é seu segundo romance.
Nunca publicada no Brasil. Finalista do Oceanos com Não se pode morar nos olhos de um gato (romance)



Ana Teresa Pereira nasceu no Funchal, Ilha da Madeira, em 1958, onde vive. Publicou o primeiro livro em 1989, Matar a imagem, e desde então publica regularmente. Entre suas obras estão Se nos encontrarmos de novo (prêmio PEN Clube na categoria Ficção), A Neve, A Outra, O Lago (Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores), A casa das sombras, As velas da noite, Neverness, As noites secretas e As longas tardes de chuva de Nova Orleãs, entre outras.
Nunca publicada no Brasil. Finalista do Oceanos com Karen (romance)



Bernardo Carvalho nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Estreou com a coletânea de contos Aberração e desde então publicou mais de dez romances, traduzidos para diversos idiomas. Entre suas obras estão Nove noites (que dividiu com Pico na veia, de Dalton Trevisan, o primeiro lugar no Prêmio Portugal Telecom de 2003), Medo de Sade, Mongólia, O Sol se Põe em São Paulo (terceiro lugar no Prêmio Portugal Telecom de 2008), O Filho da Mãe e Reprodução, todos publicados em Portugal.
Finalista do Oceanos com Simpatia pelo demônio (romance)



Elvira Vigna nasceu no Rio de Janeiro em 1947 e morreu em 2017. Escritora e ilustradora, formou-se em literatura pela Universidade de Nancy, na França, e foi mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado também em Portugal, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras e foi segundo colocado do Oceanos 2016. Entre suas obras estão O que deu para fazer em matéria de história de amor, Por escrito, Coisas que os homens não entendem e Deixei lá e vim.
Finalista do Oceanos com Como se estivéssemos em palimpsesto de putas (romance), inscrito antes da morte da autora



Helder Moura Pereira nasceu em Setúbal em 1949. Poeta e professor, é tradutor de Ernest Hemingway, Jorge Luis Borges, Sylvia Plath, Charles and Mary Lamb, Sade e Guy Debord. Ingressou no Ministério da Educação em 1986, em funções técnicas na área da educação de adultos e no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Autor de premiado trabalho poético, entre seus livros estão Pela parte que me toca, Segredos do reino animal, Mútuo consentimento, Um raio de sol, Se as coisas não fossem o que são, Em cima do acontecimento e A pensar morreu um burro e outras histórias.
Finalista do Oceanos com Golpe de teatro (poesia)



Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa em1937. Poeta, ficcionista, jornalista e ativista dos direitos femininos, travou intenso combate pelas mulheres portuguesas. Com uma obra vasta nos campos da poesia e da ficção, marcou decisivamente as gerações de 60 e 70 em Portugal. A liberdade, a desobediência e a luta contra os estereótipos são temas presentes na obra da poetisa que chocou a sua geração e a opinião pública com uma poesia erótica e ousada, na qual se destacam Novas Cartas Portuguesas (em colaboração com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno) e Minha Senhora de Mim, além de vários livros de ficção.
Finalista do Oceanos com Anunciações (poesia)



Sérgio Sant'Anna nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Iniciou sua carreira de escritor em 1969, com os contos de O sobrevivente, livro que o levou a participar do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Teve obras traduzidas para o alemão e o italiano e adaptadas para o cinema. Com quase duas dezenas de livros publicados, recebeu quatro vezes o prêmio Jabuti, mais recentemente pelos contos de O voo da madrugada (2003), vencedor ainda do prêmio APCA e do Portugal Telecom. Seu livro de contos O Monstro, três histórias de amor e o romance Um crime delicado estão publicados em Portugal.
Finalista do Oceanos com O conto zero e outras histórias (contos)




Silviano Santiago nasceu em 1936, em Formiga, Minas Gerais, e vive no Rio de Janeiro. É o romancista de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015. Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas. Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da Universidade Federal Fluminense.
Finalista do Oceanos com Machado (romance)



Verônica Stigger nasceu em 1973, em Porto Alegre, e mora em São Paulo. É escritora, crítica de arte e professora universitária. Possui doutorado em Teoria e Crítica de Arte pela Universidade de São Paulo e realizou pesquisas de pós-doutorado na Università degli Studi di Roma “La Sapienza”. É coordenadora do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema e professora dos cursos de pós-graduação em História da Arte e Fotografia da FAAP, em São Paulo. É autora de dez livros de ficção, entre eles Os anões,  Delírio de Damasco, Opisanie Świata (vencedor do Prêmio São Paulo de 2014), e dos infantis Dora e o sol e Onde a onça bebe água.
Finalista do Oceanos com Sul (contos/ teatro/ poesia)






Victor Heringer nasceu no Rio de Janeiro em 1988. Prosador, poeta e ensaísta, tem uma coluna na revista Pessoa e publicou Glória (romance que recebeu o prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer, Automatógrafo e Lígia.
 
Finalista do Oceanos com O amor dos homens avulsos (romance)







FONTE:
http://www.itaucultural.org.br/oceanos/2017/finalistas
Site das Editoras


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Fragmentos de um Dicionário Político, por Bobbio







De que nos vale saber, em pleno tempo no qual a democracia faz-se ameaçada, dos conceitos de governo? Para Bobbio, tais conceitos, como Estado, Governo e Sociedade são o germe de várias discussões.

O autor tem diversos livros publicados no Brasil. E não sou poucos, ele é um profícuo autor. E hoje vamos falar sobre o mais recente publicado aqui (ou melhor, reeditado): ESTADO, GOVERNO, SOCIEDADE - Fragmentos de um dicionário político.

Entre 1978 e 1981 Bobbio colaborou para a famosa Enciclopédia Einaudi, do grupo editorial Einaudi. Estão reunidos aqui, portanto, quatro verbetes escritos para ela, respectivamente nos volumes IV (1978), “Democracia/Ditadura”, XI (1980), “Público/privado”, XIII (1981), “Sociedade civil” e “Estado”. Ambos constituem fragmentos de uma teoria geral da política, projetada pelo filósofo italiano.

Estas informações são dadas ao leitor logo no prefácio do livro, que traz os prefácios à 1ª e a 2ª edição italiana e são assinados pelo próprio autor em 1985 e 1995, respectivamente.

A obra foi publicada pela primeira vez na Itália em 1985 e em 1986 já era traduzido em terras brasileiras por Marco Aurélio Nogueira, o mesmo tradutor da presente edição. (já está na 20ª).


Estruturo, pois, esta resenha (?), igualmente em 4 partes, tal qual os verbetes do livro, para só no final comentar o enorme prefácio que a obra traz.


1. A grande Dicotomia: Público/Privado

O autor dedica a este verbete 26 páginas e parte da conhecida passagem do Corpus iuris (Institutiones, I, I, 4; Digesto, I, I, I, 2), (o equivalente a Corpo de Direito Civil) os quais definem, nas palavras do autor “com idênticas palavras respectivamente o direito público e o direito privado”. Partindo desse pressuposto, Bobbio aponta como esta polaridade se desenvolveu ao longo do tempo pelo mundo social e político, principalmente no lado ocidental.

Dessa dicotomia, o autor desenvolve as dicotomias correspondentes, ou seja, daquelas que decorrem do público/privado, como a sociedade de iguais e sociedade de desiguais, lei e contrato, justiça comutativa e justiça distributiva. Sobre os valores dessa dicotomia, o autor julga importante tratar ainda do direito do privado e do público (E não faltam referências a Hegel, Hobbes e até Kant).


2. A sociedade civil

No segundo capítulo do livro em que o filósofo discorre sobre a sociedade civil, ele começa refletindo sobre as várias acepções para a palavra sociedade. Assim como ele explica o significado da expressão sociedade civil, ele também faz o mesmo contextualizando a sua origem até chegar na intepretação marxista, reconhecendo ainda a importância da questão judaica de Marx e o sistema Hegeliano, em que Hegel concebe em sua ideia de sociedade civil a família e o Estado. Após isso, ele destaca o uso hegeliano na sociedade civil como estado, mas desta vez como uma forma inferior de Estado, correspondendo ao significado tradicional de sociedade civil.

Nesta parte, fica muito clara a insistência do filósofo em separar os dois significados de “sociedade civil” como sociedade política ou Estado, pois ele lembra que essa distinção já tem sido feita na Encyclopédie. Em sociedade civil como sociedade civilizada, o autor discorre ainda sobre esse significado até compreender o debate atual.


“No debate atual a contraposição permaneceu. A ideia de que a sociedade civil é o anteato (ou a contrafação) do Estado entrou de tal maneira na prática cotidiana que é preciso fazer um grande esforço para convencer que, durante séculos, a expressão foi usada para designar aquele conjunto de instituições e de normas que hoje constituem exatamente o que se chama de Estado, e que ninguém poderia mais chamar de sociedade civil sem correr o risco de um completo mal-entendido.” (BOBBIO, 2017)

Fica, portanto, entendido que é preciso saber a distinção das duas expressões, mesmo que não se use-as como sinônimos, o reforço de uma sobre a outra tende a deixar a discussão mais expressa não só aos juristas, mas à própria sociedade civil.


3. Estado, poder e governo.


Bobbio parte de que as duas fontes principais para o estudo são a história das instituições políticas como um todo e a história das doutrinas políticas. Ele fundamenta essa distinção usando novamente referências clássicas como Hegel para comentar sobre os “Princípios de Filosofia do Direito”. É um ensaio que ele desenvolve sobre os governantes e governados.

Passadas as 15 primeiras páginas desse terceiro ensaio do livro, já podemos ter um breve estudo etimológico da palavra Estado feito pelo autor, assim como a origem do termo Estado. Ele credita, inclusive, a fama da palavra à obra de Maquiavel. Desde O Príncipe, a palavra Estado sofreu adjetivações que escancaram o problema da origem do Estado até chegar na opinião comum weberiana, de que o Estado Moderno pode ser definido por dois elementos constitutivos: a presença de um aparato administrativo com a função de prover a prestação de serviços públicos e o monopólio legítimo da força. (p. 89)

Sobre o Estado e o Poder, Bobbio pensa sobre as formas de poder político. É nesse ponto que o filósofo italiano faz comentários tão pertinentes que parecem ter sido escritos para a realidade do Brasil ou de qualquer outro que tenha vivenciado uma ditadura:


“O poder político vai-se assim identificando com o exercício da força e passa a ser definido como aquele poder que, para obter os efeitos desejados, tem o direito de se servir da força, embora em última instância, como solução extrema.” (BOBBIO, 2017, p. 105)

Mas ele também fala do problema da legitimidade como fundamentos do poder, legitimidade e efetividade e Estado e Direito. Ele traça a importante distinção da forma de governo (Monarquia e República) e das formas de Estado (representativo, socialista) até o Não-Estado; Estado mínimo e máximo ou ainda sobre o fim do Estado até culminar em O Estado como mal (não) necessário.


4. Democracia e Ditadura

Em suas 40 páginas dedicadas a este último ensaio, como nos outros, o autor inicialmente discorre sobre os termos democracia, etimologicamente falando. Partindo dele, o filósofo contextualiza e apresenta os usos a que a teoria foi destinada: uso descritivo (ou sistemático), prescritivo (ou sociológico) e histórico.

Só após ter feito essa incursão, o autor fala mais especificamente sobre a democracia dos modernos, democracia representativa e democracia direta ou outros tipos. Talvez a parte mais importante seja a que o autor comenta sobre a ditadura. Trazendo a contextualização da ditadura dos antigos até a ditadura moderna, ele traz também o contexto de uma ditadura revolucionária, que me parece um termo muito ambíguo e não muito claro, mas Bobbio pretende mostrar como ela, de modo geral, pode ser funesta para um povo.

Ao fim, o livro ainda apresenta um grande prefácio de Celso Lafer, que é uma reflexão contundente e articulada da recepção e alcance de “Estado, Governo, Sociedade”. Um posfácio bem fundamentado, claro e forte, já que ele se atém a refletir exatamente sobre o pensamento de Bobbio e suas teorias, mas também apresenta uma síntese de cada capítulo da obra.



SOBRE O AUTOR:

Filósofo, escritor e senador vitalício italiano. Nascido na cidade industrial de Turim, norte da Itália, considerado um dos filósofos mais importantes do século 20 e chamado pelo presidente italiano, Carlo Azeglio Ciampi, de mestre da liberdade. Chegou a ser detido, por sua oposição ao regime fascista (1935), acusado de integrar o grupo Giustizia e Libertà, período em que começou a escrever suas primeiras obras filosóficas. Casou-se com Valeria Cova (1943). Iniciou em seu país (1975) um debate sobre socialismo, democracia, marxismo e comunismo, que influenciou as novas gerações de toda Europa. Foi nomeado senador vitalício (1984-2001) pelo então presidente (1978-1985) Sandro Pertini. Nos anos 90 foi considerada a possibilidade de ser candidato à presidência italiana, um cargo de pouco poder político, mas de grande autoridade moral. Professor benemérito da Universidade de Turim, onde deu aulas de Filosofia do Direito, Ciências Políticas e Filosofia da Política durante várias décadas, escreveu para vários jornais e revistas. Recebeu o título doutor honoris causa diversas vezes, na Itália e em outros países. Viúvo (2003) depois de 60 anos de casamento, morreu no hospital Molinette, em Turim, onde esteve internado por mais de um mês com problemas respiratórios, aos 94 anos.



CURIOSIDADES E OUTROS LINKS:

· No Brasil, existe o Instituto Norberto Bobbio.

· Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), atuou no movimento de resistência antifascista, integrando o Partido de Ação, grupo de radicais de esquerda que mais tarde ajudaram a moldar a política pós-guerra.

· Em 1979, Bobbio retira-se parcialmente, aos 60 anos, da atividade docente.

· Em 1996 publica, aos 87 anos, a autobiografia "O Tempo da Memória"


Fontes:

Skoob / Editora Paz e Terra / Editora Unesp



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