segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Quinto Evangelho - Iann Caldwell

 *Resenha elaborada pela Colaboradora Juliene Lopes

SINOPSE:
Nos últimos meses do pontificado de João Paulo II, uma misteriosa exposição é montada nos museus do Vaticano. Seu curador, Ugo Nogara, alega ter descoberto um grande segredo com base em pistas fornecidas pelos quatro evangelhos - e um quinto, um manuscrito milenar que reúne todos eles, o Diatessarão - sobre a relíquia mais controversa do catolicismo: o sudário de Turim. Segundo ele, há provas concretas de que o sudário é autêntico. No entanto, suas descobertas podem pôr fim aos esforços do papa para reconciliar as duas maiores igrejas cristãs do mundo: a católica romana e a ortodoxa.
No centro desse conflito, dois irmãos seguem rumos diferentes pelas vielas do Vaticano. Simon é padre da igreja católica romana, com um futuro promissor. Alex, o mais novo, é sacerdote da igreja católica oriental, uma vertente entre a igreja de Roma e os ortodoxos.
Quando Alex recebe uma ligação de Simon pedindo sua ajuda, não imagina que o encontrará diante do corpo de Ugo Nogara, morto uma semana antes da abertura da polêmica exposição. Na mesma noite, a casa de Alex é invadida por um estranho. a polícia não consegue encontrar um suspeito, e o sacerdote inicia sua investigação.
Para encontrar o culpado, Alex precisa descobrir a qualquer custo o segredo mantido por ugo. Mas, à medida que começa a compreender a verdade, ele percebe que terá de derrotar um inimigo sem rosto para salvar a própria família.



IMPRESSÕES: Antes de opinar sobre este livro, faço uma confissão: nunca gostei de histórias sobre Igrejas e teorias de conspiração. Tendo isto em vista, foi com certa desconfiança que olhei e li O quinto evangelho. Para minha grata surpresa, a leitura foi muito prazerosa. Não pelo enredo em si, mas pela forma didática como Ian Caldwell nos explica a Igreja Católica (descobri que pouco sei sobre suas estrutura, normas e fundamentos) e pelo brilhantismo de seus personagens. Há uma trama principal, com um assassinato misterioso, onde o intuito de quem praticou o crime é preservar a Igreja. Atrelado à esta trama, há personagens que possuem carisma, força, extremamente humanos.

Pessoalmente, foi impossível não me deixar cativar pelos irmãos Alex e Simon. Alex possui filho e uma esposa - Mona - que o abandonou logo após dar início ao que parece ser uma depressão pós-parto. Ele salienta as peculiaridades de crescer por trás do muro do Vaticano e é através dele que somos ensinados sobre a Igreja e suas denominações. Alex é homem devotado ao filho, a relação dos dois envolve ternura, respeito e leveza. O que dizer de Mona, esposa quase pródiga de Alex? A figura dela despertou-me vários questionamentos sobre a mulher, seu papel na família. Simon, o irmão mais velho de Alex, sente um amor profundo pelo mundo e pela vida, mas que desde o início me fez lembrar de Drummond no poema "O sentimento do mundo". Simon carrega a culpa de quem pensa ser o responsável pelo bem-estar de todos, quando na verdade uma vida plena está nas mãos de cada um. É um homem que sonha os sonhos do próprio pai, que ao falecer tinha como maior desejo ver as duas Igrejas Católicas (Romana e Ortodoxa) unificadas.

Caldwell demorou onze anos para desenvolver sua narrativa e para mim vai além: é uma história sobre amor e perdão. Perdoar ao próximo e principalmente a si mesmo. O Quinto Evangelho é sobre liberdade.


Sobre o Autor:
Comparado pela crítica norte-americana a Umberto Eco e Scott Fitzgerald, Ian Caldwell é coautor do best-seller O enigma do quatro, que vendeu mais de 2 milhões de exemplares nos Estados Unidos e foi traduzido para 35 idiomas.


Hot Sul - Laura Restrepo


Se o conceito aristotélico é valido de que a arte imita a vida, então o livro Hot Sul (Hot Sur, Tradução de Luís Carlos Cabral, 518 páginas, Bertrand Brasil, 2016, R$ 59,90), livro da escritora Laura Restrepo, consegue cumprir este papel da arte literária.

 
         Resumidamente, o livro conta a história sob o ponto de vista de três personagens: Cleve Rose, María Paz e Ian Rose, este último é pai de Cleve. Os três personagens possuem fortes vidas dramáticas e se incluem em temas pertinentes da atualidade. Cleve Rose é um professor, contador de histórias, que trabalha em oficinas de escrita criativa no presídio de mulheres que tem o nome de Manninpox. Outro ponto de vista contado na história vem da María Paz, pseudônimo de uma jovem imigrante colombiana que vive nos Estados Unidos presa justamente no presídio Manninpox. A penitenciária fica nos arredores de Catskill, cidade onde habitam os personagens desta história. Reside aqui, neste ponto de vista da história, para mim, os mais comoventes trechos da narrativa que além de ser crítica em relação aos imigrantes, aborda-o com muita delicadeza. Outro ponto de vista da história é narrado pelo pai de Cleve, o Ian Rose.
         A priori, não percebemos muita conexão entre os capítulos. Mas no decorrer da narrativa encontramos os pontos convergentes. O começo do livro é visceral, cru e denso: dois jovens tentam entrar numa seita religiosa (Penitentes Brothers do Sangue de Cristo), localizada no sul estadunidense. É um belo começo de um thriller que envolve e sustenta-se por mais de 500 páginas.
         Logo depois à empreitada dos dois jovens, a narrativa dá um salto de 30 anos e retrata e terrível crime em Nova York: um homem, mesmo de assassinado, tem seu rosto dilacerado, colado no tecido vermelho e o corpo é pregado numa cruz. Este não é o primeiro assassinato da estória. O thriller de Laura Restrepo ainda apresenta perfis psicopatas, possessividade e ciúme que compõem uma narrativa que prende o leitor na história que leva o Sr. Rose a investigar todo o caso até culminar no início da resolução do conflito e envolver as outras histórias paralelas. Embora a narrativa permaneça um pouco morosa nas primeiras partes, a partir da terceira parte, mais ou menos, que é onde começamos a ser informados das conexões das histórias, ela fica mais veloz e também mais envolvente.
         A protagonista da história, María Paz, é apontada como assassina de seu próprio esposo. Isso chega até nós, leitores, de modo curioso: Ela participou, no passado, de uma oficina de escrita criativa ministrada por Cleeve, quando ela estava na penitenciária Manninpox. Nesta oficina, todos são convocados a escrever uma espécie de autobiografia. Muito tempo depois, quando não mais existiam as oficinas de escrita criativa, o pai de Cleve, Ian Cleeve recebe uma correspondência contendo os manuscritos destas memórias.
E é por meio destes seus manuscritos que conhecemos as características mais intrínsecas à natureza de María Paz. Suas memórias e as anotações nos cadernos de Cleve Rose dão-nos pistas de como são engendrados os mistérios que Ian Rose conta a um interlocutor que conheceremos apenas no finalzinho da narrativa.
O livro contém um teor crítico com relação ao sonho americano, à desilusão e falta de reconhecimento que os latinos americanos enfrentam na América. Os próprios empregos as quais estes imigrantes latinos são submetidos vira motivo de crítica latente no livro de Restrepo. Mas não é só isso, a autora compõe críticas ao regime de trabalho, ao sistema carcerário americano no qual os estrangeiros são apinhados e ainda a própria condição de ser mulher, já que a maioria das críticas vêm, impermeada, nas falas de María Paz, seja em suas memórias, manuscritos ou ainda na própria fala que surge nos discursos diretos que a autora nos coloca.
Talvez a autora tenha buscado suas referências em outros clássicos americanos como As vinhas da Ira ou ainda O Lobo da Estepe. O certo é que sobretudo por sua sensibilidade com temas atuais como a questão do imigrante e a psicopatia que a narrativa nos cativa com os acontecimentos que mimetizam a realidade. É necessário atenção nas três primeiras centenas de páginas. Daí em diante, é preciso mais fôlego para acompanhar o ritmo da história. E é incrível como as histórias se conectam numa trama imbricada por personagens sempre envoltos em aporias.
A edição do livro no Brasil ficou a cargo da Bertrand Brasil, que traz sutilmente na capa a modernidade e o hush hush da narrativa em cores quentes com com a primária verde. As linhas são como trilhos que nos instigam a uma leitura da história a partir da capa. O papel e a fonte, que se unem à diagramação, proporciona ao leitor mais facilidade de leitura. É leitura para mais de uma semana e deixar saudade de María Paz.

Sobre a autora: 


Nasceu em Bogotá, Colômbia, em 1950. Formou-se em letras e filosofia pela Universidad de los Andes. Seu primeiro livro, História de um entusiasmo, veio a público em 1986. Escritora reconhecida internacionalmente, traduzida em mais de doze idiomas, foi agraciada com o Prix France Culture (França) e o Prêmio Sor Juana Inês de la Cruz (México) pelo romance Dulce compañia







Fonte: Editora Record / Skoob

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