segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Um farol no pampa [ou de como a guerra destrói planos]


Spin Off de A Casa das Sete Mulheres, o segundo livro da trilogia na qual a autora se propõe a contar a história dos pampas gaúchos desde a Revolução Farroupilha, Um farol no pampa  (Bertrand Brasil, 2017, 459 páginas, R$52,90) é uma revelação. Não porque amplie o universo de algumas personagens, mas também porque possui um plano de fundo de um período histórico que muito nos interessa.
Com a vitória do Império, terminada a Revolução Farroupilha em 1845, os revolucionários farroupilhas, assim como os membros da família do general Bento Gonçalves, retratada em livro anterior, retorna à estância da Barra, para seguir a vida com as perdas e os ganhos. Neste novo livro, Bento vive adoentado e recolhido na companhia de sua esposa, Caetana. O livro Um farol no pampa inicia, portanto, no ano de 1847, quando a paz parecia algo definitivo após um longo período de batalhas.

            Parecia, mas a vida nada é como planejado. Logo, os homens se verão envolvidos em mais um conflito envolvendo não mais só a região gaúcha, mas outro país.

            O protagonista, dessa vez, é masculino e chama-se Matias, personagem que já nos foi apresentado em A casa das sete mulheres. Mas ainda há a predominância de personagens femininas na narrativa que fortemente relacionam o seu papel no desenvolvimento dos acontecimentos, afinal, as mulheres são personagens marcantes no desenrolar da trama e dos conflitos da narrativa.
            A história de Matias se une a das sete mulheres da estância que ficaram sozinhas a espera dos homens que foram à Revolução Farroupilha. Temos também neste livro os diários da doce Manuela (que ainda vive à espera de Garibaldi e, acreditem, tem muita coisa para revelar) e por meio deles vamos tomando conhecimento da guerra, das aflições, dos familiares envolvidos na sangrenta Guerra do Paraguai, mas também do amor dela pelo italiano Garibaldi, que dessa vez não ganha tanto destaque na obra. Alguns de seus primos e primas casaram e construíram família, outros, ainda enfrentam dificuldades, seja pela perda, seja pela saudade.
            Assim, a narrativa intercala entre o romance de Matias e Inácia, a de Manuela e ainda a de Maria Angélica, filha de Caetana e Antonio, que ao herdar a estância do Brejo, para lá retorna a fim de conhecer o lugar que tanto marcou sua família.
            É o testamento do pai de Matias, o senhor Antonio Gutierrez, que dá o gatilho inicial para conhecermos a vida, as frustrações e angústias da alma de Matias. Após a Revolução Farroupilha, é narrada a evolução e crescimento do menino Matias, assim como suas primeiras descobertas e paixão pela prima Inácia.
            Matias Gutierrez, o protagonista, segue o exemplo de força, coragem e bravura de sua avó, dona Antonia. Ele apaixona-se por Inácia, neta de Caetana, mas como ele lutará na Guerra do Paraguai (que passa agora a ser o plano de fundo, assim como a Revolução Farroupilha foi no primeiro volume da trilogia), o romance do casal enfrentará alguns percalços e circunstâncias da vida em tempos de guerra, pois assim como Matias, outros homens da família de Bento Gonçalves mais uma vez partirão para as batalhas, deixando aflitas as mulheres, que dobrando os joelhos no chão, interpelam orações e preces pela sobrevivência dos familiares. Às vezes até há compaixão pelos inimigos de guerra, outras, são preces em prol de um amor que viveu uma decepção.
            Os tempos de guerra duram 6 anos, pois a Guerra do Paraguai aconteceu no período de 1864-1870, período no qual o Império era a forma de governo no Brasil. Se no primeiro volume dessa saga, a Revolução Farroupilha era a protagonista, aqui temos a Guerra do Paraguai protagonizando mortes e muito sofrimento. Nesse período de violência e furor, vemos um destino já fragmentado e cheio de dificuldades para o casal Inácia e Matias, pois ao mesmo tempo que sua história parece particular, ganha ares de universalidade quando os acontecimentos da História do Brasil mostram que foram muitas as famílias esfaceladas pela guerra. Como o espaço predominante não é mais os pampas gaúchos, as terras paraguaias ganham o enfoque na narrativa e apresentam, da mesma forma que no primeiro livro, como as privações, mortes (que não são poucas), o sangue, as doenças e até mesmo a defesa pela pátria ocasionam tragédias.

Leticia Wierzchowski usa aqui acolá um vocabulário próprio do início do século XIX, quando ainda o português conservava o pronome de tratamento Vosmecê, por exemplo, ou ainda quando D. Ana, da estância, vê a chegada dos paraguaios em terras do Rio Grande do Sul.

"Pena que não estarei viva para saber do causo.... 
Falava com um sorriso, como quem fazia uma última troça. Não tinha medo de morrer, temia mesmo era deixar a estância e a família. A morte era em verdade um descanso, um luxo que, àquela altura da vida -  quantos anos teria então? quase oitenta - ela almejava sinceramente.
José sorriu-lhe com benevolência. Pegou a mão esquálida entre as suas.
- Deixe disso, madre. Vosmecê vai estar viva para ver o último destes paraguaios ser expulso do Rio Grande.

Mesmo quando a guerra é narrada, a autora usa de artifícios poéticos para contar como História também se ficcionaliza.  E a morte parece até algo romantizado.
O nome do livro deve-se a existência de um farol edificado por D. Ana, que sonhava tê-lo como referência aos navegantes que passavam pelo rio próximo à sua estância. O mesmo farol que ilumina e guia, será palco do triste desfecho de muitos personagens do primeiro livro da trilogia. Um farol no pampa é, portanto, um belo fim para a saga de uma família que foi iniciada em A casa das sete mulheres, pois nele o amor vivia rodeado de tragédia e o futuro era sempre um mistério para aqueles que partiram para a guerra.
A pintura da capa do livro é da mesma autoria dos outros, que preserva o excelente design de capa, que junto à boa diagramação do livro faz com que desejemos ler cada vez mais sobre a história da família de Bento. 
Letícia Wierzchowski parece querer contar uma história das terras gaúchas, assim como o fez Érico Veríssimo em sua monumental obra O tempo e o vento. Envolvendo história, romance e lutas, a escritora dá aos pampas gaúchos mais valor literário.


SOBRE A AUTORA:
Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre, RS, em1972, e estreou na literatura em 1998 com o romance O anjo e o resto de nós. A autora é considerada uma das maiores revelações da literatura nacional do início do século XXI. Uma das raras escritoras a perceber e a traduzir, em palavras, a personalidade, o sentido e o poder de ação de personagens e cenários brasileiros. Em 2003 o romance A casa das sete mulheres foi adaptado pela Rede Globo em uma série de 50 capítulos. Desde então, a produção televisiva já foi veiculada em quase 30 países, e a obra de Leticia ganhou caminhos internacionais. Ela tem livros editados na Espanha, Portugal, Grécia, Itália e Sérvia-Montenegro.

FONTES:

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O empoderamento feminino de A casa das Sete Mulheres

Comecemos esta discussão acerca da classificação. Faz-se necessário enquadrar este livro em um romance histórico? Biografia? Ficção histórica? Qual a melhor categorização?

A ficha catalográfica da presente edição aponta-o como Ficção Brasileira. E só. Não contentes, com isso, faz-se oportuno informar, embora seja desnecessário, que o livro inspira-se na Revolução Farroupilha, para compor o quadro de personagens que apresentam como plano de fundo a História que mudou a vida de muita gente que morava nos pampas do Sul. O presente romance foi escrito por uma genuína gaúcha, a Letícia Wierzchowski e teve repercussão imediata, sendo adaptada com sucesso para a TV em 2003 e com direitos autorais vendidos para diversos países do mundo.

Tem uma frase do romance que simboliza bem esse aglomerado de acontecimentos que levaram a mortes de vidas e sonhos:

"Do mesmo sonho que se vivia, também se podia morrer" (pág. 11)

O romance A casa das sete mulheres começa a narrar desde 1835, o ano novo no qual Manuela, a narradora da história, inicia a escrever seu diário que teremos conhecimento na íntegra. No festejar das comemorações do ano que estava por vir, 1835, Manuela, a jovem de sensibilidade aguçada, vê nos céus uma estrela de fogo, que ela interpreta como sangue e morte nas terras gaúchas. No contexto nacional, a monarquia era governada pelo infante Dom Pedro II, que incapaz de governar todo o país, não demonstrou interesse nem importância para a região sul. Com o aumento de impostos e os inúmeros descontentamentos, não demora até que a ecloda a Revolução Farroupilha, anunciada pelos tradicionais rádios da época à família de Bento.
Bento Gonçalves decide, então, proteger as mulheres de sua família numa Estância da Barra, à beira do Rio Camaquã até que a guerra passe. Junto às mulheres, Bento também isola os quatro filhos pequenos da família.
São pelos cadernos de Manuela que saberemos os sentimentos e acontecimentos que motivaram toda a família de Bento Gonçalves da Silva (líder do exército Farroupilha da província). Temos a perspectiva de Manuela porque ela se envolve com o famoso personagem histórico italiano Giuseppe Garibaldi, romance que de fato ocorreu e foi importante para o desenvolvimento da história que se conta.
            No entanto, o tempo passa e a guerra não finda. E vamos acompanhar o ritmo da guerra pelos cadernos de Emanuela, assim como vemos a vida sua e das outras seis mulheres tomarem rumos diferentes para sempre. Essas sete mulheres das quais o título se refere são Ana Joaquina, Maria Manuela (irmãs de Bento Gonçalves, sendo a primeira a dona da estância e a última, viúva de Anselmo); Caetana (esposa de Bento); Perpétua (filha de Caetana e Bento) e as primas Rosário, Mariana e Manuela (filhas de Maria Manuela).
            Além dessas mulheres, há ainda a irmã do general, Antônia, que vizinha à Estância da Barra, está sempre presente nos acontecimentos que se passa na casa de Bento Gonçalves. Ambas as irmãs de Bento sofrem por esperar seus maridos, filhos e parentes que estavam na guerra e fizeram esforços para que as mulheres da casa tivessem um pouco de sanidade mental.
É do ponto de Manuela, a sensível jovem, que teremos mais posse de informações acerca dos acontecimentos que se arrastam mais do que deveria, deixando a família aflita e angustiada com a demora dos que foram à guerra e dos que ficaram esperando. Depois da partida dos homens para a guerra (que dura 10 anos), drama não falta às mulheres que ficaram reclusas na recôndita fazenda. Na ânsia de vê-los de volta, as mulheres se valem de frequentes novenas, orações, preces que elevam aos céus em busca de salvação para os seus que naquele momento estão em derramamento de sangue pela pátria gaúcha.
As atitudes de Caetana, a matriarca da família, a general que mostra como suas preocupações refletiam sempre o bem-estar da família, mantendo a sanidade mesmo nos dias mais aflitos. Caetana agia como conselheira, esposa, mãe, amiga e irmã de todos, fiel ao esposo Bento Gonçalves, devota-lhe um amor exemplar mesmo em meio aos abalos da guerra e distante do marido durante anos. Já Maria Manuela, irmã de Bento, é reservada e completamente amarga.
A cada batalha, as correspondências entre os membros da família contam os números de mortos, as mortes de outros amigos, mostrando o drama de mulheres que se veem impossibilitadas de realizar algo: são agonizantes noites na Estância, orações infinitas e romances impossíveis. É a partir de então que constatamos que as perdas e os dramas não são apenas relacionados à guerra. Uma guerra que, tristemente, arrancou a vida de gente inocente e abalou a fé de outro tantos, uma vez que as vigílias de oração em prol do cessar da guerra eram constantes. É, sobretudo, a saudade dos familiares que sofrem os que ficam, uma vez que as notícias que chegam até elas são escassas e a preocupação não para. À medida que o tempo passa, a fé diminui e o fim da guerra se parece cada vez mais distante.
Mas é um romance que também mostra como as mulheres são empoderadas e podem interferir no rumo das coisas. Caetana, mulher de Bento, é um exemplo de matriarca que sabe diligentemente gerir a casa das sete mulheres. Apesar de narrar os dez anos da Revolução Farroupilha, a mais longa guerra civil do continente, vemos tudo pelo ponto de vista feminino. E isso importa porque diferente de outros romances, nos quais se tem a visão preponderante masculina, aqui é a ótica e os dramas das parentas de Bento Gonçalves que irá prevalecer.
Entre as mulheres da casa, Manuela é uma das mais cativantes. Desde cedo, ela foi prometida aos 15 anos ao filho de Bento Gonçalves, o seu primo Joaquim. No entanto, ela se apaixona perdidamente por Giuseppe Garibaldi. O italiano, como se sabe, divide seu amor com Anitta Garibaldi. Embora a personagem Anita apareça pouco na narrativa, ela ganha destaque pela bravura, valentia e ousadia em seguir seu companheiro na batalha. Garibaldi era um italiano andante e acostumado com batalhas. Veio ao Rio Grande do Sul objetivando motivar as batalhas, seja na construção de navegações, seja nas próprias batalhas. Numa dessas paragens, Garibaldi vai até a Estância de seu amigo, Bento. É nessas visitas que a bela Manuela se apaixona por ele. Ao partir, ela promete espera-lo. O sofrimento de Manuela é o mais empático, pois seu amor por Garibaldi se vê ameaçado quando este encontra sua amada Anita.
As outras meninas, Manuela, Mariana e Rosário, assim como Perpétua, desde jovens, tiveram que amadurecer muito rápido, diante das mudanças. Ambas abdicaram de festas, distanciadas de serem cortejadas, foram isoladas, sofrendo e aprendendo a lidar com as perdas. Sem dúvida, os encontros e amor de Rosário e Steban é algo que sai um pouco do drama da guerra e ajuda a intercalar as narrativas de guerra com a perspectiva do romance.
Letícia Wierzchowski construiu personagens principais e terciários de modo muito bem e mesmo aqueles que não são tão importantes para a trama, como soldados, por exemplo, ganham “almas” de personagem efetivos.
A escritora ainda escreveu mais dois livros contando a saga da família de Bento Gonçalves, transformando A casa das sete mulheres numa trilogia que segue com Um farol no pampa e Travessia, nos quais ambos se propõem a contar os desdobramentos de outros personagens, como a história de amor de Garibaldi e Anita, por exemplo. Enfim, o romance, como um todo, mostra o domínio de ações advindos de atitudes das mulheres, pois são elas as protagonistas desse livro de 461 páginas que nos imerge em guerras, conflitos familiares, amores e muita dor.
A nova edição de A casa das sete mulheres segue o mesmo padrão dos demais títulos. Tem ilustrações de Chico Baldini, que lindamente, combina com as capas. A única coisa que sinto falta nessas edições é de um prefácio crítico, pois ainda que a autora traga algumas informações no prólogo, edições como estas, certamente, ficariam mais ricas com algum prefácio. Todos os livros da série estão foram editados pela Bertrand Brasil, que fez um excelente trabalho de edição e revisão.



SOBRE A AUTORA:

Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre, RS, em1972, e estreou na literatura em 1998 com o romance O anjo e o resto de nós. A autora é considerada uma das maiores revelações da literatura nacional do início do século XXI. Uma das raras escritoras a perceber e a traduzir, em palavras, a personalidade, o sentido e o poder de ação de personagens e cenários brasileiros. Em 2003 o romance A casa das sete mulheres foi adaptado pela Rede Globo em uma série de 50 capítulos. Desde então, a produção televisiva já foi veiculada em quase 30 países, e a obra de Leticia ganhou caminhos internacionais. Ela tem livros editados na Espanha, Portugal, Grécia, Itália e Sérvia-Montenegro.

CURIOSIDADES:

  • O livro Garibaldi e Manoela:uma história de amor conta mais, de forma resumida, a história de amor do casal protagonista.
  • Na minissérie da TV Globo, Manuela foi interpretada lindamente por Camila Morgado.
  • Abertura da minissérie inspirada no livro pode ser vista aqui.
  • Aqui você confere uma entrevista com a autora .

FONTES E REFERÊNCIAS:

·         Editora Record        Skoob /         Editora Intrínseca 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ternura e violência tinturam o romance histórico Um conto de duas cidades, de Chalres Dickens





 “Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas...”. 


É assim que Dickens imprime em Um conto de duas cidades (Tradução de Débora Landsberg. 3 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2016) constantemente o uso de expressões como “tempos”, “época”, “idade” e “estação” para reforçar o caráter histórico da obra, pois além de apresentar um período no qual os oprimidos eram forçados a viver em condições precárias, também mostra a ternura e violência das facetas humanas representadas nas personagens que ora são ícones de uma época, ora são idealizações universais de cidadania e lealdade.
Lançada em 1859, não muito tempo passado a Revolução da França, a obra é inspirada no livro História da Revolução Francesa, do historiador Thomas Carlyle, publicado em 1837. Daí, então, inúmeras personagens (que não são poucas, uma vez que Dickens faz desfilar diante do leitor uma enorme quantidade delas) transitarem entre espaços londrinos e parisienses, fazendo-nos reformular “nossa geografia psicológica”, como bem diz Virginia Wool ao comentar a obra-prima do autor, David Copperfield. Um conto de duas cidades é, portanto, uma obra diferente das demais escritas pelo autor, que cultivara até então um gênero de aventuras e romances regados a muito humor. Não que este último não exista nesta obra, mas percebemo-lo de como sutil, como um elemento desnecessário para um drama denso e pesado que é a história de Dr. Manette e sua filha, contada desde os tempos finais de uma revolução americana até o terror implantado na França pós-revolução.


            Em 476 páginas, a obra divide-se em três partes que comungam entre si, conectando os espaços, os acontecimentos históricos das duas cidades (por isso o título do livro) e a relação das personagens que, à maneira de um puzzle, estão imbrincadas nos mesmos conflitos.
Dr Manette e Lucie com Charles Darnay
A aventura começa quando Lorry e Lucie, a filha que não acreditava ter o pai ainda vivo, vai buscá-lo numa espécie de refúgio da casa da família Defarge, membros que lideraram a Revolução e viviam no subúrbio e revolucionário Saint Antoine. Dr. Alexandre Manette, preso injustamente na Bastilha por 18 anos, virara sapateiro e carregará por muito tempo o trauma da prisão. A partir dessa “volta à vida”, muitos conflitos surgem. Do lado inglês, a família de Manette tenta se reestabelecer do trauma da prisão do patriarca e os amigos Charles Darnay e Sidney Carton disputam o amor de Lucie; Do lado francês, as Jacquerie e seus sentimentos de vingança derrubam tronos e castelos dos aristocratas. Com a eminente revolução, crescem os casos de julgamento e morte por traição, tanto em terras londrinas, quanto em Paris. Por motivos de lealdade, logo após o casamento, o marido de Lucie, Charles Darnay, é convocado por meio de uma carta a voltar à Paris. Lá, ele é preso, condenado por traição à pátria, obrigando toda a família de Manette a voltar mais uma vez à França para resgatá-lo, suportando julgamentos e conflitos pessoais que envolvem até sósias.
No entanto, Dickens não concentra sua narrativa em pessoas reais ou históricas. Nomes como Luiz XVI, Robespierre, Marat ou Danton jamais são citadas, nem referenciadas. A Guillotine é a única personagem histórica que ganha vida ao levar à morte os condenados. Na obra, o autor opta por tratar esses conflitos individuais e familiares, deixando a revolução como pano de fundo para o desenvolvimento da trama. Dickens narra as prisões, julgamentos, condenações, violência, miséria e tortura, eventos corriqueiros que aconteciam concomitante à Revolução, que pregava por “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, ou “Morte”, como ele acrescenta.
Outros acontecimentos históricos são usados como artifícios para justificar atos de personagens, como a data do decreto que torna criminoso os emigrantes na França, motivo pelo qual justamente Darnay é preso; ou ainda as insurreições advindas de bairros que nas tavernas planejavam as mortes e rebeliões.
            Um conto de duas cidades é leitura incontornável para quem pretende perceber os desdobramentos históricos tratados em uma narrativa cheia de voltas e revoltas. Mas não somente por isso, mas, sobretudo, para olhar o ponto de vista dos oprimidos, dos revoltados, das minorias e populares que, em meio à miséria, buscaram na insurreição uma forma de mudar o rumo da História.


SOBRE O AUTOR:Nascido em 1812 nas cercanias de Portsmouth, Inglaterra, Charles Dickens foi o segundo filho de John Dickens e Elizabeth Dickens. John Dickens, funcionário da superintendência da Marinha, esteve diversas vezes às voltas com agudos problemas financeiros. Isso acabou por levá-lo ao cárcere em 1824, ano em que o pré-adolescente Charles passa a trabalhar em uma fábrica de graxa para ajudar a família. A partir de 1832 trabalha como repórter no Morning Chronicle. Nessa época passa a publicar crônicas bem-humoradas sob o pseudônimo “Boz”. Em 1836 assume o cargo de editor da Bentley’sMiscellany. Entre 1936 e 1937 é publicado seu primeiro romance de destaque, As aventuras do Sr. Pickwick. Entrega-se com vigor à produção literária e já em 1843 obteria um estrondoso sucesso com A Christmas Carol (Um Conto de Natal). Sua existência fremente, atribulada por casos de amor e adultério, contendas intelectuais e trabalho extenuante — além do trabalho literário e jornalístico, entregava-se com muita frequência, contra os conselhos médicos, a longas leituras públicas de suas obras — terminou por levá-lo a uma sequência de derrames cerebrais, que causariam sua morte, em julho de 1870. 

 
  Curiosidades e outras Informações:
 
  •  Um Conto de Duas Cidades foi publicado pela primeira vez em fascículos, no Al the Year Round, de 30 de abril a 26 de novembro de 1859, e em oito partes mensais de junho a dezembro do mesmo ano. O romance apareceu sob a forma de volume em novembro de 1859.
  • O personagem Sidney Carton é um dos maiores ícones da literatura inglesa; é a primeira vez que é usado o nome de batismo de Carton. O manuscrito do romance mostra que a primeira escolha de Dickens quanto a esse nome foi Dick (ele não se decidiu por Sydney senão por volta da metade do presente capítulo, e então voltou atrás em seu manuscrito e alterou o nome). A escolha de Dick quase certamente reflete o nome do personagem caracterizado por Dickens em The Frozen Deep, Richard Wardour, mas também teria enfatizado o paralelo entre Charles Darnay e Dick Carton, dando-lhes iniciais invertidas. O nome Sydney origina-se de um tal de Algernon Sy dney (1622-83), que foi julgado perante o juiz Jeffrey s, acusado de cumplicidade no complô de Ry e House, sendo julgado culpado e executado.
  • The French Revolution: A History, de Thomas Carlyle (1795-1881), livro que serviu de inspiração para Dickens,  foi publicado pela primeira vez em três volumes em 1837. Na época da redação de seu romance, Dickens tinha em sua biblioteca a edição de dois volumes da narrativa de Carly le, publicada por Chapman and Hall em 1857.
  • O manuscrito de Um Conto de Duas Cidades, preservado na Coleção Forster, no Museu Vitória e Alberto, revela que Dickens inicialmente pretendia que madame Defarge fosse uma “pequena mulher” absorvida em seu trabalho de costura. Ele apagou o parágrafo original e substituiu-o pela versão atual, na qual nós podemos vê-la tricotando. Essa mudança foi sem dúvida sugerida por uma lembrança das famosas tricoteuses, as patrióticas tricoteiras de Paris, que aparecem com destaque em The French Revolution, de Carlyle.
  • Muitos dos lugares descritos por Dickens ainda existe; 
  • A personagem "Vingança": o uso de conceitos políticos ou morais como nomes pessoais não era incomum durante a Revolução. O exemplo mais notório é o do outrora duque de Orleans, que escolheu o nome de Philippe Égalité (“Felipe Igualdade”).
  • O livro tem várias adaptações para o cinema, dentre elas  a de 1935, 1958 e 1980.


Fontes:
Estação Liberdade / Edição da Editora Nova Cultural /  Site Charles Dickens

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