quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Literatura para um mundo voraz


O curioso convite de Tatiana Salém Levy para comentar literatura num jornal de economia deu a ela a oportunidade de angariar um público cada vez mais ligado ao mundo dos negócios. Suas crônicas, pois, refletem, tanto a literatura quanto ao mundo no qual estamos imersos: cheio de conflitos, problemas políticos, éticos e, claro, culturais, abrangendo, portanto, a literatura, nosso foco aqui.

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O incrível livro “A chave da casa” foi um fenômeno na época e conferiu à autora prêmios e um sucesso imediato. É o seu livro de estreia e também o mais bem-acabado, podemos dizer. O título para este mais novo livro O mundo não vai acabar (Tatiana Salem Levy, 1ª ed.  Rio de Janeiro: José Olympio, 2017, 180 páginas)  é explicado pela autora:


“O Brasil é um país que não fala muito da própria memória. Com essa seleção, eu quis um livro que apontasse para um futuro melhor. O presente está tão ruim, não só no Brasil, que escutamos o tempo todo que o mundo vai acabar.” (LEVY, 2017)

É uma compilação de crônicas que a autora escreveu para o Jornal Valor Econômico, mas tão somente, já que o livro traz muitos textos inéditos também.

Assim, a própria autora (que ao que me parece foi ela mesma a organizadora do livro, a edição não nos dá essa informação) divide-o em três partes uníssonas:

Na primeira (Tudo nos leva a crer que sim), ela se dedica a discutir questões mais essencialmente políticas, como relações entre a eleição do presidente americano Donald Trump e os textos literários, assim como também a violência contra a mulher. Ainda nesta primeira parte a escritora e ensaísta relaciona a obra de Hannah Arendt à origens do totalitarismo com a eleição de Trump, mas também comenta outros conflitos, usando textos de Amós Oz para ilustrar o artigo “Onde temos razão não podem crescer flores”. Sobre o estupro, a Tatiana traz um dos livros cuja temática se faz mais preponderante: Desonra, do J.M. Coetezee. Mas ela também discute textos acadêmicos, como o famoso Antropofagia – Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo, livro muito bom para quem transita nas ciências sociais. No fim desta primeira parte, a escritora ainda trata em seus ensaios de temas mais midiáticos, como o assédio à masterchef mirim do programa MasterChef Júnior.


O livro segue na segunda parte (Sem memória, não há presente),conferindo um certo engajamento em mostrar como a memória é importante para construir um presente menos suscetível ao esquecimento de tragédias e outros acontecimentos e conflitos traumáticos. Para isso, ela inicia esta parte comentando e relacionando o contexto da ditadura com um romance que eu, particularmente, adoro. É K., de Bernardo Kucinski, que semelhante ao universo kafkiano, mostra a busca frustrada de um pai pela filha. Tatiana também discorre nos ensaios sobre Lima Barreto e um dos personagens mais marcantes da nossa literatura: o herói frustrado Quaresma. Sobre a importância do passado, ela discute a obra A memória de todos nós, de Eric Nepomuceno para embasar o artigo O passado é agora. E ela conclui esta segunda parte com o emocionante relato Coisas que ela sabe.


“A arte tem esse poder de transformar emocionando. Uma pessoa, várias pessoas, um povo. É essa emoção que interessa à filosofia contemporânea. Um movimento para fora capaz de se abrir para questões da sociedade, como o luto das mulheres do filme de Eisenstein, que termina por virar uma revolução política” (p. 134)

A terceira parte (Onde há literatura, há mundo), como o título sugere, é o ápice e onde a escritora se dedica mais profundamente a mostrar como a literatura se relaciona com a realidade externa que construímos. Os nomes aqui são Melville, Clarice Lispector, Virginia Woolf, dentre outros contemporâneos, como Alexandre Vidal Porto, Gonçalo M. Tavares (que eu adoro) e até a queridinha do momento Elena Ferrante, mas também os filósofos Juan-Luc Nancy, Deleuze, Foucault.  A escritora também não nega a influência de Marguerrite Durras em sua escrita literária. O livro termina de forma fenomenal comentando o incrível O amor dos homens avulsos, de Victor Henringer.
 
“Não sei se estou sendo otimista além da conta, mas faz parte da personalidade de quem lê literatura ter esperança, mesmo diante dos cenários mais tenebrosos” (p. 142

Percebemos em suas crônicas como Tatiana se esmera em sempre relacionar literatura (e sua importância) com os fatos cotidianos que acontecem ao nosso redor, mesmo que seja do outro lado do mundo, alguns com viés político, outros, com linguagem sublimemente poética. Sua maneira leve de escrever e falar de temas tão densos, polêmicos nos faz entender como a literatura humaniza as pessoas e nos possibilita um olhar cada vez mais amplo acerca dos acontecimentos e/ou comportamentos pessoais e universais.
A edição tem orelha de Marcia Tiburi e essa capa lindona  feita pelo Estúdio Insólito. Nem precisa dizer que é um livro indicado para todos os públicos, mas principalmente para quem gosta de perceber a relação da literatura com os fatos sociais. É um livro com uma escrita que flui facilmente entre nós.

SOBRE A AUTORA:

Tatiana Salem Levy é uma escritora brasileira nascida em Lisboa, tendo aos nove meses de idade ido para o Brasil. Para além de ter a nacionalidade brasileira, Tatiana Salem Levy, tem ascendência judia, portuguesa, assim como turca. Destacou-se no seu romance autobiográfico a que deu o título de "A Chave da Casa". Tatiana Salem Levy é escritora, tradutora e doutora em Estudos de Literatura. Publicou o livro A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze (Relume Dumará) e contos na revista Ficções 11 (7Letras) e nas antologias Paralelos (Agir) e 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record). A chave de casa, seu romance de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, pela editora Cotovia.

  
FONTES E REFERÊNCIAS:

domingo, 10 de setembro de 2017

A Senhora de Wildefell Hall

















Em A Senhora de Wildfell Hall (Editora Record, 503 páginas), Anne Brontë nos presenteia com um excelente romance que conta a historia de Helen Graham. A narrativa, considerada polêmica, denuncia os padrões de comportamento erráticos assumidos por homens e mulheres dentro da instituição do casamento.

A heroína da historia – Helen – é uma viúva que se muda com o filho Artur para a mansão abandonada de Wildfell Hall. Lá ela acaba por se tornar alvo de fofocas e especulações sobre seu caráter, principalmente na esfera amorosa. É através de uma carta que ela acaba por contar todas as desventuras que passou para chegar ao seu atual destino.

Trata-se da clássica história do casamento ruim e da esposa que decide fugir do passado e do marido. Parece clichê, mas não é. O livro foi escrito no século XIX e é com pesar que vemos as questões abordadas nele serem ainda tão atuais.

O livro mostra a trama de uma relação abusiva desde o início, do noivado ao rompimento e é certeiro ao revelar como a mulher presa a esse tipo de relação sente-se e pensa. Helen assume o papel de mãe do marido e em diversas vezes crê ser responsável pela conduta dele. Seu marido faz questão de manipular a situação a seu favor, de modo a reforçar o sentimento de culpa de Helen.

Quando Helen opta por se casar, sua decisão é tomada com base na ingenuidade de que com esforço e amor conseguirá modificar o comportamento de seu futuro marido, ensinando-lhe o caminho da retidão. Acredita até ser esse o dever cristão de uma esposa.

Entretanto, as coisas não saem como ela imaginava e a experiência acaba dando à personagem nova visão sobre os papéis dos homens e mulheres, sobre a criação dos filhos( em especial a dos meninos) e sobre a necessidade de independência da mulher dentro do casamento. São idéias que rendem debates excelentes entre as personagens. Tudo isso faz de Helen uma mulher forte, à frente de seu tempo e mal compreendida pela maioria.

Anne Brontë foi muito feliz na escolha dos temas e conseguiu construir seu romance com responsabilidade e maestria. A Senhora de Wildfell Hall traz personagens ricos e carismáticos. Leitura mais que necessária!

Sobre a autora: Filha mais nova da família Brontë, era irmã de Emily Brontë, autora de O Morro dos Ventos Uivantes, e de Charlotte Brontë, autora de Jane Eyre – livros clássicos e reeditados até hoje. Desde jovem, Anne tinha por hábito escrever e ao lançar seus livros escolheu o pseudônimo masculino Acton Bell. Entretanto, seu romance mais importante foi considerado obscuro até mesmo por suas irmãs, uma vez que propunha temas considerados tabus na época. Acometida pela tuberculose, a autora teve uma vida breve, o que não a impediu de nos deixar uma obra excepcional e muito além de seu tempo, considerada o verdadeiro marco da literatura inglesa. Antes de falecer, suas últimas palavras, direcionadas à irmã, foram: “Coragem, Charlotte.”



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Lendo Teoria: Para o filósofo alemão Gumbrecht, a literatura também é materialidade




 Gumbrecht é uma figura filosófica muito presente no Brasil, sobretudo nos congressos da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada) e uma vez ou outra vejo textos dele sendo discutidos no meio acadêmico. Mas não somente nele, uma vez que o filósofo também discute outras questões relevantes para a sociedade.



Aqui no blog, inclusive, você pode encontrar uma resenha de um outro livro dele aqui. Então o autor já um velho conhecido nosso, podemos dizer. Suas ideias a respeito de stimmung, ambiência e o sentido de presença no texto literário são bem defendidas em seus livros, mas neste Nosso amplo presente, (Hans Ulrich Gumbrecht, Editora Unesp, 160 páginas, Tradução de Ana Isabel Soares, 2015, R$ 40,00) pela sugestão que o próprio título nos traz, encontramos trechos dedicados a comentar especificamente a criação de uma presença que o texto literário possui. O livro aqui comentado aborda não só o conceito de presença e sua cultura como também aproveita para enxertar comentários sobre o próprio presente, o qual pode ser concebido pelo filósofo como uma noção de tempo cronológico ou ainda à ideia de existir algo presentificado diante de nós. A palavra presença, inclusive, vem do latim prae-esse, tal como o autor coloca-o no texto.

Didaticamente, divido, pois, esta resenha em cinco pontos sobre o livro. Segue.

        1. O conceito de presença é para o filósofo alemão, uma cultura de sentido, de presença, na qual ele mesmo trata de explicar logo nas primeiras páginas do capítulo 1, no qual ele define como uma re

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