sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O versátil talento de Emily Brontë e sua relação poética: grandiloquência e estética

O morro dos ventos uivantes (que título mais romântico) é um clássico da literatura inglesa de autoria de Emily Brontë, uma das três irmãs que possuíam uma veia literária plausível e proeminente. No romance, vemos como a escritora inglesa impõe uma marca extremamente romântica naquele que seria um dos grandes ícones da literatura universal.
Poder-se-ia dizer que a escritora é conhecida apenas por este grande romance, mas quis a sua irmã que o lado lírico e poético de Emily fosse também conhecido do grande público. Sob os pseudônimos Currer, Ellis e Acton Bell, Charlotte, Emily e Anne Brontë, respectivamente, publicaram em 1846 um livro de poemas que não obteve muito sucesso.  Só muito tempo depois a poesia das três irmãs iria mostrar a força que tinha.
Sobre isso, é importante notar como o cânone literário ocidental tem privilegiado aquela produzida pelo branco, ocidental e de classe social elevada. Zolin (2009) lembra que

Para ter assegurado o direito de falar, enquanto o outro é silenciado, o sujeito que fala se investe de um poder advindo do lugar que ocupa na sociedade, delimitado em função de sua classe, de sua raça e, entre outros referentes, de seu gênero, os quais o definem como o paradigma do discurso proferido. Historicamente, esse sujeito imbuído do direito de falar é de classe média-alta, branco, e pertencente ao sexo masculino.

O livro só foi publicado no Brasil em 1944, mais de cem anos depois, fazendo parte da famosa Coleção Rubáiyat, da editora José Olympio, em capa dura e com tradução de Lúcio Cardoso, o autor do clássico "Crônica da casa assassinada".
No apagar das luzes de 2016, a Editora Civilização Brasileira, editora do mesmo Grupo Editorial da José Olympio, reedita e publica o livro em sua versão bilíngue. Trata-se de uma grande oportunidade de contactar a poesia Brontëana mais de perto e perceber as nuances da tradução livre de Lúcio Cardoso. Dizemos que se trata de uma tradução livre porque Lúcio não fez aquela famosa tradução literal dos versos, ou seja, a tradução não é uma simples transcrição dos versos escritor em inglês para o português moderno.  Ésio Macedo Ribeiro (2016, p. 9), que assina a apresentação da obra ressalta que

A Teoria da Transcrição de Haroldo de Campos, quando este diz, em suma, que o tradutor é um recriador. Lúcio Cardoso não antecipa tal teoria só neste livro, mas em toda poesia e prosa por ele traduzida ao longo da década de 1940.

Assim, ao iniciar a leitura do livro é bom sabermos que o trabalho de Lúcio Cardoso contribuiu muito para a compreensão e entendimento dos versos. A tradução livre proporciona que o leitor entenda o sentido principal do poema em detrimento da tradução feita palavra por palavra. Dessa forma, ao termos contato com a edição bilíngue, a editora propicia ao leitor uma leitura analítica, onde este possa encontrar as semelhanças e diferenças entre as duas versões, como a sonoridade, o ritmo, aliteração e até mesmo o número de sílabas poéticas de cada verso. Mas nada disso incomoda, pois é um hábito bem comum no universo da tradução. Ao contrário, a tradução foi essencial para que a obra de Emily Brontë fosse compreendida e lida pelos brasileiros. Nada da tradução interfere, por exemplo, na essência da mensagem que cada poema passa.
O livro é composto por 33 poemas, que foram selecionados da obra original por Lúcio Cardoso. Ésio, inclusive fala da dificuldade que ele teve para confrontar as versões, uma vez que a escolha feita por Lúcio realizou-se por meio de várias edições da obra de Emily. A maioria dos títulos dos poemas, inclusive, foi opção de Lúcio Cardoso. A maioria dele, pode-se perceber, que tem no título o primeiro verso do poema.
O poema que abre a coletânea é “The night-wind” (O Vento da noite), poema que dá nome ao título do livro. Em seguida vem poemas que trazem como tema a solidão noturna, a fuga para um local calmo, noite, pai, família, a figura de Deus e invocações a figuras divinas. Os poemas também transparecem uma certa atmosfera misteriosa, na qual a alma, o brilho, melancolia, o escuro e uma composição de antíteses fazem parte do lirismo da autora.
A seguir, transcrevemos o poema que dá nome ao livro.

O vento da noite

À meia noite de verão, mole como um fruto maduro,
A lua sem véus lançou a sua luz
Pela janela aberta do parlatório,
Através dos rosais onde o orvalho chovia.

Sentada e perseguindo o meu sonho de silêncio,
A doce mão do vento brincava em meus cabelos
E sua voz me contava as maravilhas do céu.
E a sua terra era loura e bela de sono.

Eu não tinha necessidade do seu hálito
Para me elevar a tais pensamentos,
Mas um outro suspiro em voz baixa me disse
Que os negros bosques são povoados pelas trevas.

A folha pesada, nas águas da minha canção,
Escorre e rumoreja como um sonho de seda;
E, ligeira, sua voz miriápode caminha,
Dir-se-ia levada por uma alma fagueira.

E eu lhe dizia: “Vai-te, doce encantador.
Tua amável canção me enaltece e me acaricia,
Mas não creio que a melodia desta voz
Possa jamais atingir o meu espírito.

Vai encontrar as flores, as tuas companheiras,
Os perfumes, a árvore tenra e os galhos débeis;
Deixa meu coração mortal com suas penas humanas,
Permite-lhe escorrer seguindo o próprio curso.”

Mas ele, o Vagabundo, não me queria ouvir,
E fazia seus beijos ainda mais ternos,
Mais ternos ainda os seus suspiros: “Oh, vem,
Saberei conquistar-te apesar de ti mesma!

Dize-me, não sou o teu amigo de infância?
Não te concedi sempre o meu amor?
E tu o inutilizavas com a noite solene,
Cujo morno silêncio desperta minha canção.

E quando o teu coração achar enfim repouso,
Enterrado na igreja sob a lousa profunda,
Então terei tempo para gemer à vontade,
E te deixarei todas as horas para ficar sozinha…”

(Tradução de Lúcio Cardoso)

É uma grande oportunidade para o leitor brasileiro se aproximar de um outro lado quase desconhecido de Emily Brontë. Às vezes pode-nos soar estranho ver a tradução livre, mas logo percebemos que foi a melhor opção. Denise Bottmann, administradora do excelente blog (naogostodeplagio.blogspot.com/) assina a orelha do livro e define-o como um diálogo feito entre a edição em inglês e a transcrição para o português.
É de fato um importante acontecimento no mercado editorial brasileiro. Em tempos que são publicados poemas de padaria em forma de livro, a publicação desse clássico vem solidificar a importância das Brontë para a literatura ocidental. Seus temas até hoje influenciam outros na criação poética. Infelizmente a edição não informa a fonte das fotos usadas, mas a folha de guarda contém uma linda imagem de uma garota que ri para o leitor. Provavelmente seja Emily, não tenho certeza, mas é uma linda folha de guarda. Como a própria edição informa, é o único livro no Brasil que reúne exclusivamente a poesia de Emily Brontë. Um livro indicado para todos os leitores, sem restrições de idade. Mas gostaria de indicar prioritariamente aos acadêmicos de Letras, para que seja feito mais estudos da poesia de Emily.

SOBRE A AUTORA E O AUTOR
Emily Jane Brontë nasceu em Thornton, Inglaterra, em 1818. Era a quinta filha de uma família de seis filhos que se mudou, em 1820, para Haworth­, cidade a oeste de Yorkshire, na Inglaterra, onde Emily, uma jovem tímida e introspectiva, passava seu tempo tentando driblar a dura realidade da vida precária e monótona do campo. Com suas irmãs, Charlotte e Anne, publicou, em 1846, uma coletânea de poemas assinada com os pseudônimos Ellis, Currer e Acton Bell, respectivamente. Mas seu grande sucesso literário se deu com o romance O morro dos ventos uivantes, publicado em 1847. Inicialmente a obra foi mal compreendida pelos ingleses, mas com o tempo foi alçada a clássico da literatura mundial, recebendo várias adaptações e transposições para o cinema. Emily Brontë morreu jovem, aos 30 anos, em Haworth, em 1848, vítima da tuberculose.
Joaquim Lúcio Cardoso Filho nasceu em Curvelo, Minas Gerais, em 14 de agosto de 1912. Passou sua primeira infância em Belo Horizonte, onde fez o curso primário no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Em 1923 mudou-se para o Rio de Janeiro, e apesar de um rápido retorno a Belo Horizonte no ano seguinte, tempo em que estudou no Colégio Arnaldo, voltou a se estabeecer no Rio em 1929, onde publicou, em 1934, seu romance de estreia, Maleita. Depois disso, escreveu outros romances, peças de teatro, contos e fez traduções, atingindo o auge de sua carreira com Crônica da casa assassinada, romance publicado em 1959, que se tornou um clássico da literatura brasileira. Em 1962, um derrame cerebral o fez perder os movimentos do lado direito do corpo e a fala, levando-o a interromper sua produção literária. Passou, desde então e até o fim da vida, a se dedicar à pintura. No ano de 1966 recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Faleceu, no Rio de Janeiro, em 24 de setembro de 1968.

FONTES E REFERÊNCIAS:
ZOLIN, L. O. A literatura de autoria feminina brasileira no contexto da pós-modernidade, IPOTESE, Juiz de Fora, v.13, n. 2, p. 105-116, jul./dez. 2009


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A História da Família de Anne Frank



É conhecida no mundo inteiro a história da menina judaica que junto com sua família foi protegida num esconderijo com a ajuda de benfeitores. A menina de olhos doces cujo nome é Anne Frank ficou mundialmente conhecida pelos seus relatos pungentes em seus Diários que muito depois foram compilados e publicados com a organização de seu pai, Otto Frank, juntamente como Mirjan Pressler.
 
Embora no Diário Anne se disponha a contar o cotidiano de uma adolescente da época em plena Segunda Guerra Mundial, bem como a rotina do esconderijo e outras informações pessoais, tais como paixão, escola e amigos, ela não conta muito da história de sua família.
Esta lacuna permaneceu no vácuo até que Mirjan Pressler, estudiosa e especialista na obra de Anne Frank, organiza juntamente com Gerti Elias A história da família de Anne Frank (Grüße und Küsse an alle, Tradução de Andre Delmonte, Herta Elbern e Marlene Holzhausen, Editora Record, 406p, 2016, R$49,90) num livro preenchido por correspondências encontradas no sótão da casa de Buddy Elias, primo de Anne. 

Depois de quase um século, foram encontradas mais de mil cartas, documentos e fotos, que tem um grande significado para a história da família Frank e, ao mesmo tempo, coloca mais claramente em evidência a própria Anne. Esses documentos, organizados e editados por Gerti Elias, esposa de Buddy, são a base para a história familiar aqui apresentada. Trata-se de cartas e documentos que já foram parcialmente publicados e de outros que permanecem inéditos.
 
Com a publicação e organização dessas correspondências em narrativa, a história de Anne Frank ganha novos contornos, novas informações e novos detalhes de seus ascendentes. Assim, o livro inicia contando de forma poética, quase infantil, uma temporada de férias que a família Frank passou nos Alpes Suíços. Lá, ficamos sabendo do espírito familiar que compunha os Frank’s. Depois desse pequeno preâmbulo, o livro divide-se em três partes.

A primeira parte (Alice Frank, nascida Stern (1865-1953) avó de Anne) é predominantemente desenvolvida contando a história e vida da avó de Anne, Alice Frank. Nesta parte conhecemos a origem da família, bem como os avós de Anne se conheceram e se envolveram até dar à luz aos pais daquela menina que escreveria um dos diários mais comoventes da história da humanidade. Nesta parte também encontramos como os tios de Anne se dispersaram e como era o cotidiano da família.

A segunda parte (Helene Elias, nascida Frank (1893-1986) Tia de Anne) conta com maiores detalhes como era o cotidiano da família, antes e durante o esconderijo, antes e durante a Segunda Guerra, o período sem as cartas que os familiares escreviam uns para os outros e principalmente as de Otto Frank, pai de Anne. Nessa parte também encontramos como era o dia a dia dos judeus. E isso é estupidamente lindo perceber como sua religiosidade proporcionava momentos alegres e divertidos. Mas aqui o leitor pode se preparar. Pois esta parte foi, para mim, a parte mais dramática, comovente e dolorosa. É difícil ler cartas de um pai anunciando à família que sua filha foi pega e morta pelos nazistas. É de arrepiar o trecho das cartas nas quais os familiares tentam confortá-lo com cartas afetuosas e reconfortantes. 
 
A terceira e última parte (Buddy Elias (1925-2015) Primo de Anne) concentra-se nos relatos do próprio Buddy em contar suas experiências como ator na construção de uma peça teatral sobre o Diário de Anne Frank e, em seguida, na produção de um filme homônimo. É uma parte bem nostálgica, não menos que as outras, mas ainda assim muitos trechos saudosos da família.

É um dos livros mais comoventes que já li. Você pode lê-lo rapidamente, já que se trata de um livro em que predomina as epístolas com poucas (mas essenciais) intervenções de Mirjan Pressler e Gerti Elias. Toda história familiar favorece-nos uma empatia, devido os seus laços familiares e memórias espirituosas. Mas, certamente, a história da família Frank deixa qualquer leitor comovido. A shoah não transformou em tragédia só a vida de muitas famílias, mas do mundo inteiro.
 
O livro conta ainda com um prólogo, epílogo e um comovente e primoroso posfácio escrito por Gerti Elias, esposa de Buddy Elias, que era primo de Anne. No final do livro ainda podemos encontrar a árvore genealógica das famílias Stern, Frank e Elias. A tradução é de André Delmonte, Herta Elbern e Marlene Holzhausen.
 
A edição brasileira contém fotos (algumas delas compõem esta postagem) e carta inéditas na íntegra da família Frank, deixando aguçada em nossa memória uma dor vivida por toda a família.
 
 SOBRE AS AUTORAS:
Mirjam Pressler é escritora e tradutora. Traduziu O diário de Anne Frank e publicou quase quarenta livros de grande sucesso. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Prêmio para Literatura Juvenil; a medalha Carl-Zuckmayer pelos seus méritos em favor da língua alemã; o Prêmio do Livro Alemão (Livro Infantil) em 2002 pela obra Malka Mai; e o Prêmio do Livro Alemão de 2004 pelo conjunto da obra.
Gerti Elias nasceu em 1933. Formou-se como atriz e trabalhou nos principais palcos da Alemanha, Áustria e Suíça. Casou-se em 1965 com Buddy Elias, primo de Anne Frank. Em 1986, o casal mudou-se para uma propriedade da família de Buddy em Basileia. Ao arrumar o sótão da casa, Gerti descobriu milhares de cartas, documentos e fotos da família. O acervo levou 2 anos e meio para ser organizado e transcrito. Em 2007, Gerti recebeu o título de Doutora honoris causa da Universidade de Basileia.
CURIOSIDADES:
  • A obra completa de Anne Frank ganhará neste ano de 2017 uma versão em quadrinho
  • Buddy Elias faleceu em 2015
  • A polêmica em torno dos Direitos Autorais do Diário está longe de acabar. Uma vez que, embora a autoria seja da Anne, o organizador (que recebe os direitos autorais como autor) é o pai de Anne, Otto Frank. Com isso, a obra ainda vai demorar muito tempo para entrar em domínio público. Otto Frank morreu em 1980)
  • O Diário de Anne Frank é o livro mais vendido da Editora Record, editora que detém os direitos autorais no Brasil do Diário.
  • O Esconderijo de Anne Frank pode ter sido descoberto por acaso, relata uma das principais reportagens de 2016
  • Você pode fazer aqui uma visita 3D ao esconderijo de Anne Frank
 
 
Imagens retiradas da edição brasileira do livro.

[Cartas Famosas] De William Faulkner


Esta é a carta de demissão mais linda que já vi. É impactante, objetiva e ousada.
Faulkner, mesmo antes de ganhar o Nobel, teve que ralar um pouquinho. Trabalho sob pressão numa agencia dos correios e, segundo o que se sabe, ele não era um bom funcionário. Muitos dos seus famosos romances foram escritos durante o seu expediente, por exemplo. Depois de muitas reclamações do setor, ele escreveu a carta que se segue:

Outubro, 1924.

Enquanto eu viver sob o sistema capitalista, espero ter a minha vida influenciada pelas demandas das pessoas endinheiradas. Mas eu vou ser amaldiçoado se me propuser a estar à disposição de cada canalha itinerante que tem dois centavos para investir em um selo postal.

Isso, senhor, é a minha demissão.


_______________________

William Faulkner Nasceu em 25 de setembro de 1897 em New Albany, Mississippi. Aclamado com o prêmio Nobel e dois Pulitzer, é autor de clássicos da literatura americana, como O som e a fúria (1929) e Luz de agosto (1932). Utilizando a técnica do "fluxo de consciência" consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann, Faulkner narrou a decadência do sul dos Estados Unidos da América, interiorizando-a em seus personagens, a maioria deles vivendo situações desesperadoras no condado imaginário de Yoknapatawpha. Por muitas vezes descrever múltiplos pontos de vista (não raro, simultaneamente) e impor bruscas mudanças de tempo narrativo, a obra faulkneriana é tida como hermética e desafiadora.Faulkner faleceu de complicações cardíacas em 06 de Julho de 1962, logo depois de lançar seu último romance, Os desgarrados.

Fonte: L&PM

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