sexta-feira, 5 de maio de 2017

Melville e a vida metalinguística de Bartleby, o escrivão

Melville parece estar em alta para o mercado editorial. Só recentemente foram lançadas 3 traduções de Bartleby, sem contar as independentes; foi lançada também Jaqueta Branca, romance inédito em terras tupiniquins, dentre outras edições do clássico Moby Dick. Melville é o clássico autor de Moby Dick, que caudalosamente trata em seu romance homônimo até onde o ser humano pode ir com a experiência da vingança.
 
Enquanto que a Editora Grua classifica a obra como uma novela, A Autêntica classifica-a como um conto. Esta edição aqui comentada e lida é classificada pela Editora José Olympio como um romance americano. É aqui, pois, que reside uma aporia acadêmica na qual eu gostaria de me ater antes de adentrar mais especificamente na obra. Seja como for, na presente edição, apresentada pelo grande ficcionista Jorge Luis Borges, o qual categoriza afirmando que "Bartleby já define um gênero que Franz Kafka reinventaria e aprofundaria a partir de 1919: o das fantasias do comportamento e sentimento ou, como agora lamentavelmente se diz, psicológicas."

Deleuze (1997) ainda afirma em Crítica e Clínica que

Bartleby não é uma metáfora do escritor, nem símbolo de coisa alguma. É um texto violentamente cômico, e o cômico sempre e literal. É como uma novela de Kleist, de Dostoievski, de Kafka ou Beckett, com os quais forma uma linhagem subterrânea e prestigiosa. Quer dizer aquilo que diz, literalmente. E o que ele diz e repete e PREFERIRIA NAO, I would prefer not to. É a formula de sua glória, e cada leitor apaixonado a repete por seu turno. Um homem magro e lívido pronunciou a formula que enlouquece todo o mundo.

Explanado isso, vamos à obra.
 
 A narrativa (vamos doravante assim chamá-la diante da questão dos gêneros), apresenta alguns problemas pertinentes à nossa vida peculiar de um cotidiano infernalmente preenchido de trabalho. O personagem narrador da obra, um advogado de sucesso em Wall Street apresenta-nos um curioso escritório no qual trabalham figuras excêntricas e peculiares. No início da narrativa (pág. 14), o narrador nos adverte que “não há material suficiente para uma biografia completa e satisfatória desse homem (Bartleby)”. Assim, de acordo com o advogado, a sua história é um documento literários, não moral, legal ou pessoal.
Melville pega um fato corriqueiro (a contratação de um funcionário) e transforma isso em uma pérola literária. O simples fato do personagem homônimo à obra postergar sempre suas atividades revela como somos parecidos com ele no cotidiano.
A história desenrola-se na cidade de Nova York, mais ou menos no final do século XIX, mais precisamente no famoso centro comercial Wall Street, daí o subtítulo da obra que algumas editoras usam. A narrativa tem como espaço predominante o escritório do advogado, que é o narrador do livro. Com ele trabalham três auxiliares que lhe ajudam na escrituração e cópia de documentações: Nippers, Turkey, e um garoto esperto e carismático Ginger Nut.
Cada um desses personagens contém em si características que o fazem ser cômicas no início. Desde um que muda de humor conforme o horário até aquele que, zangado, bate com os punhos na mesa de madeira. São pessoas em sua maioria simples, mas que trazem em si o germe de uma ambiência carregada de mistério. Nippers possui indisposição intestinal e por isso comete muitos erros nas cópias. Turkey, age de forma (in)diferente no turno da tarde. Inclusive o advogado já tentara demiti-lo, mas não obteve sucesso, de modo que o funcionário continuou no escritório, mas com alterações de tarefas. Com o acúmulo de trabalho, já que o advogado é nomeado como Oficial do Arquivo Público, ele vê a necessidade de contratar mais um funcionário como copista. É aqui, pois, que entra em cena, o misterioso e excêntrico Bartleby.
Para equilibrar o clima organizacional do escritório, o advogado prefere colocar o biombo de Bartleby perto de sua mesa, deixando os demais funcionários no outro lado da sala separada por uma parede de vidro. Com isso, a presenta de um homem mais sério seria a justificativa para o advogado harmonizar o humor. No entanto, Bartleby reage quase sempre com uma frase lacônica e negativa aos pedidos do patrão; “Preferia não fazê-lo”.

        Atônito, o narrador assiste àquelas declarações do funcionário que se nega, por exemplo, a conferir a cópia da escritura que ele mesmo fizera antes. Como uma oração, Bartleby vai respondendo sempre que solicitado e assim vai mudando a estrutura burocrática do escritório, uma vez que os demais funcionários questionam e reclamam. No decorrer da narrativa não sabemos onde Bartleby mora, nem o que come, já que ele nunca sai nos intervalos para fazer refeição. Mas um dia o advogado descobre que Bartleby reside no próprio escritório. Perplexo, ele tenta dialogar com Bartleby e pede que ele conte de sua vida, pois ele só quer ajuda-lo. Bartleby, porém, nada responde, a não ser o seu código de “preferia não fazê-lo”. Algo de kafkiano existe nessa personagem que, incapaz de responder de forma objetiva, carrega em si uma certa melancolia.
        O advogado decide, assim que tem a oportunidade, de conversar com o escrivão. Esta conversa culmina com a demissão de Bartleby que, claro, nega-se a sair do escritório, pois “prefere não fazê-lo”.
        A partir de então, a narrativa fica cada vez mais kafkiana. Ainda que o advogado mude de endereço, demita Bartleby, ele se faz sempre presente na rotina do advogado, pois mesmo no outro local de trabalho, o advogado é solicitado pelo novo inquilino do antigo prédio do seu escritório a responsabilizar-se pela saída de Bartleby, pois ele se recusava a sair do lugar onde estava. Assim, sem saída, várias pessoas do prédio se reúnem e pedem a prisão de Bartleby.
        O advogado sempre acompanhou Bartleby, dando-lhe auxílio, mesmo que de forma indireta. Muito tempo depois, o narrador descobre que Bartleby fui funcionário do Setor de Cartas Devolvidas dos Correios, em Washington, do qual fora afastado por mudanças na administração. Um espanto abate sobre o narrador que questiona a metaforização da profissão à personalidade do escrivão: um encarregado de encontrar nas cartas extraviadas o seu trabalho sustentável. Coerente com o homem perdido, sem esperança que é Bartleby.
Temos quase sempre a impressão de que “algo vai acontecer agora...”, quando na verdade o inusitado já está acontecendo na narrativa. 
O que acontece no final da narrativa seria spoiler, mas não surpreende muito o leitor o fato de um personagem introspecto e sisudo adotar uma postura maquinaria no dia a dia. O final de Bartleby é triste e evidente, mas como o próprio narrador nos fala, ele é a humanidade e a ela se dirige representando-a.
        Com a excelente tradução de A.B. Pinheiro de Lemos, a Editora José Olympio prossegue com o seu trabalho de proporcionar ao leitor brasileiro boas edições de clássicos da literatura universal. A capa reflete bem a atmosfera do livro e a atitude do escrivão que leva o título da obra.

SOBRE O AUTOR:
 

Nascido em 1819, em Nova York, Herman Melville desde jovem sonhou ardentemente em correr mundo. Obrigado a trabalhar por motivo de falecimento do pai, o futuro viajante exerceu vários empregos modestos, até fazer sua primeira viagem, à Inglaterra, quando tinha apenas quinze anos, e em 1841 já se dirigia aos Mares do Sul. Foi capturado pelos selvagens de uma das ilhas daquelas longínquas paragens, de onde conseguiu fugir para o Taiti. A fim de garantir seu sustento ao regressar aos Estados Unidos, aceitou um emprego na Alfândega de Nova York, lá trabalhando de 1866 a 1885. Morreu em 1891 na mesma cidade onde nascera. Virtualmente ignorado em seus próprios dias, Herman Melville teve o valor de sua obra literária reconhecido pelos críticos dos anos 1920, que o consideraram um dos maiores escritores do século XIX.


CURIOSIDADES:

Em março do ano de 1853, o escritor americano Herman Melville publica pela primeira vez, na Putnam’s Monthly Magazine, de Nova York, seu famoso conto (?) “Bartleby”, traduzido para a língua portuguesa como “Bartleby, o escrivão”.
O estudioso Johannes Dietrich Bergmann assinalou semelhanças entre "Bartleby" e The Lawyer's Story , um romance sobre um advogado e um scrivener problemático serializado noSunday Dispatch em 1853. De acordo com Bergmann, "TheBartleby" foi publicado em 1853 em duas partes nas edições de novembro e dezembro da Revista de Putnam , anonimamente, sem nenhuma nota sobre o gênero. 

INDICAÇÕES:

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Conheça a SociedadeMelville

FONTES:
KAHN, Andrew. Bartleby, o escrevente. SLATE, 22/10/2015. Acesso em 03 de maio de 2017.  Disponível em http://www.slate.com/articles/arts/culturebox/2015/10/herman_melville_s_bartleby_the_scrivener_an_interactive_annotated_text.html
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terça-feira, 2 de maio de 2017

A biografia de Charlotte e impacto da crueldade


*Resenha elaborada pela colaboradora Juliene Lopes

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SINOPSE: Este romance retraça a vida da pintora Charlotte Salomon. Uma tragédia familiar pouco antes da Segunda Guerra Mundial marca a vida da pequena Charlotte, que já dava indícios da realizada artista que viria a se tornar. Obcecada pela arte e pela vida, a jovem, progressivamente excluída de todas as esferas sociais alemães com a ascensão do nazismo, tem que abandonar tudo para se refugiar na França. Exilada, ela inicia uma obra pictural autobiográfica de uma modernidade fascinante. Sabendo estar em perigo, entrega os desenhos ao seu médico, dizendo: ''É toda a minha vida". Padece em Auschwitz, aos 26 anos, grávida. Esse romance assombroso e redentor, pautado na vida da trágica figura real que lhe serve de protagonista, é o relato de uma busca. Da busca de um escritor obcecado por uma artista.



Quando eu era criança, costuma achar biografias sem graça. Me recordo de pensar "Qual a graça de ler o que já se sabe?" Como se o saber de antemão os eventos principais da vida de alguém tornasse a história previsível. Só com o passar dos anos ganhei a maturidade de entender que o que faz a vida de alguém é o percurso, os mínimos detalhes que guiam seus passos aos eventos principais.
E é isso que traz a beleza ao triste romance escrito por David Foenkinos. Pois a vida de Charlotte foi trágica desde antes de sua existência. Herdeira de uma linhagem de suicidas, ela parece ser a única que, apesar da melancolia, era ávida por viver. 
Perdeu a mãe para a depressão e para o suicídio muito cedo, aos seis anos de idade, portanto conheceu cedo a força da solidão. O pai, muito dedicado ao trabalho, não tinha muito tempo para ela, mas encontrou em Paula, sua segunda esposa, uma boa substituta para a mãe de Charlotte. 

A artista sempre foi muito reservada, tímida, introspectiva. Quase não tinha amigos, mas não pareceu infeliz por isso. Era aluna dedicada, brilhante na escola, mostrava aptidão para o desenho e quando adolescente determinou para si que se tornaria estudante da academia de Belas-Artes. Entretanto por ser judia (de nascença, mas sem religião na prática) e tratar-se de uma Alemanha nazista, houve resistência. Nada relacionado ao seu talento, posto que esse não foi contestado. Graças a insistência do professor Ludwig Bartning conseguiu sua admissão. Charlotte lidou com o preconceito, destacou-se e ganhou prêmio, porém foi proibida de recebê-lo. Outra aluna recebeu em seu lugar. Uma legítima ariana. Diante da humilhação, decidiu que nunca mais pisaria na academia.

Ficou um tempo reclusa em casa, encontrando conforto em seus desenhos. Apaixonou-se pelo professor de música da madastra, Alfred. Um homem incapaz de prometer um amor pleno e fértil. Ele mesmo era meio quebrado por dentro e portanto, nunca fez promessas. Com a intensidade da perseguição aos judeus, Charlotte foi obrigada a se exilar na França, e assim o fez. Uma vítima das circunstâncias, sempre sofrendo as consequências dos atos alheios: a solidão dada pelo suicídio da mãe; a proibição de expor seu talento por ter nascido judia; a insegurança de um amor mal correspondido; a fuga do ódio alheio. Mas apesar disso, ela sobreviveu e se perpetuou na arte.

Foi pega pelos nazistas três vezes. Na primeira, foi parar em um dos campos junto com seu pai. Ambos sobreviveram, foram soltos. Depois disso foi enviada para a França, onde estavam seus avós. Somente lá, após o suicídio da avó, foi descobrir que sua própria mãe também havia se matado. Ficou devastada, chorou todas as lágrimas que se esforçou para prender durante anos. Após uma visita ao médico da família (doutor Moridis) veio a catarse, nascia a semente da sua obra "Vida? Ou Teatro?" Decidiu colocar nas pinturas a história da sua vida. 

"E enfim, ela precisa o estado de espírito do seu personagem: 

Era preciso desaparecer da superfície humana por algum tempo.

E, para isso, aceitar todos os sacrifícios.

A fim de recriar as profundezas do seu ser, o seu próprio universo" (página 187) 


A linguagem e a forma poética da narrativa.
Foram dias dedicados exclusivamente ao trabalho. Mostrou ao mundo a própria figura e todos os outros personagens que partilharam a vida com ela. Quando concluiu colocou tudo em uma mala e confiou sua obra, toda sua vida, à Moridis. Foi pega uma segunda vez pelos nazistas, mas a solidariedade de um soldado a ajudou a fugir. Exilou-se mais uma vez dentro da própria França. Engatou um relacionamento com Alexander Nagler, engravidou, casou. Viviam como dois eremitas, escondendo-se do perigo. Mas após uma denúncia, ela foi pega pela última vez. Marido e mulher foram presos, separados e por fim Charlotte teve a maternidade negada ao morrer junto ao filho não nascido, em Auschwitz.

Parece tudo triste, trágico, mas apesar de tudo Charlotte inspira resiliência, força, vontade de viver. 

"Eu era todos os personagens na minha peça.

Aprendi a seguir por todos os caminhos.

E assim tornei-me eu mesma." (p.195)

Foenkinos escreve sua narrativa como poesia. É uma leitura dramática e reflexiva, com frases de impacto. Charlottte inspira empatia, ao olhar para ela, através das linhas e das palavras, só posso dizer que gostaria de ter sido sua amiga, aplacar um pouco sua solidão. Mas como ela própria ensina, existem as circunstâncias. Todos podem ser vítimas delas mas cabe a cada um a escolha de aprender com as situações e ressurgir com beleza e força delas, deixando assim de ser vítima delas. Charlotte foi assim.


SOBRE O AUTOR:
Nascido em Paris, em 1974, David Foenkinos é roteirista de cinema e autor de mais de uma dezena de livros, entre os quais os romances O potencial erótico de minha mulher e A delicadeza, que deu origem ao filme A delicadeza do amor, dirigido por ele e pelo irmão, Stéphane Foenkinos, e estrelado por Audrey Tautou. Saudada por público e crítica, sua obra é traduzida em mais de 20 países.  





 FONTES:
 

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