quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O frágil toque dos mutilados - Alex Sens


 *Resenha elaborada pela colabora Rosir Ene Paz
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 O frágil toque dos mutilados, romance de estreia do jovem escritor Alex Sens, é um misto de laços de famílias, dor e angústia.




O título por si, atrai, chama a atenção e insinua poesia. A cada página lida uma mistura de amor e ódio por alguns dos personagens tomava de conta, tentar entender o que cada um sentia, me envolvia e no final pude perceber que assim como Magnólia, Herbert, Elisa, Orlando, Tomas, Muriel e muitos outros personagens, somos envoltos a uma teia que liga nossas histórias, vidas, dores e que temos medo de encarar a realidade, de encarar nossas fraquezas e angústias. Temos nossos demônios internos e a verdade, que às vezes liberta, também aprisiona. Sintam se convidados a ler O toque frágil dos mutilados e assim como eu, encontrar em cada personagem um pedacinho de mim mesma. 
A história conta a trajetória de vida que envolve esses personagens citados logo acima, uma família envolta por sentimentos incompreendidos, abraços guardados, amores abafados, verdades não ditas. Um alcoólatra, uma com transtorno de personalidade, um alheio ao que acontece à sua volta (ou que assim como eu, leva a vida de forma: “deixa a vida me levar, talvez assim não enlouqueço”), uma que busca através da força do universo e de mantras encontrar respostas para tudo que acontece, duas crianças perdidas em seu próprio mundo e alguns amigos que vivenciam da vida desses.
Magnólia e Herbert casados ha pouco tempo resolvem aproveitar as férias e se reunir a Orlando e seus filhos, Tomaz e Muriel, dois adolescentes que moram com o pai em uma casa de praia e que carregam a dor de ter perdido a mãe a pouco mais de um ano. A visita da irmã e do cunhado é aguardada por Orlando, já que faz alguns anos que não se veem. Logo, ter a irmã por perto traria uma sensação de alegria e ao mesmo tempo tensão para Orlando, pois sabe que ela é uma mulher difícil de ser agradada. Orlando vive em um conflito interno constante, aceitar a morte da esposa é difícil, buscou no álcool um refúgio para sua dor e apenas conseguiu se afastar dos amigos e da sua profissão. Magnólia é uma mulher intensa, direta, uma sommelier apaixonada pelo aroma e gosto dos mais requintados vinhos, que trava uma batalha interna por conta do transtorno de personalidade levando a todos a sua volta a andarem sobre minas, pois a qualquer momento pode explodir. Herbert é um homem passivo, distante, que vive no seu mundo de pesquisas sobre Virginia Woolf (escritora inglesa, que se suicidou decorrente de uma depressão). Aliás, há fortes influências da escritora na narrativa arquitetada por Alex Sens, que amarrando muito bem as histórias, conduz-a rumo à coerência.
Herbert não conhece a família da esposa, mas sabe dos problemas vividos pelo cunhado e da angustia que Magnólia vivencia desde que decidiu passar um tempo com o irmão e os sobrinhos, Magnólia não esteve presente no velório da cunhada Sara, mas passou inúmeras noites em claro ouvindo o irmão, embriagado, chorar sua dor.  A recepção foi feita de maneira carinhosa, a convivência com a família, o retorno à sua antiga cidade e o reencontro com pessoas que fazem parte do seu passado, dão a Magnólia a vontade de se libertar dos medicamentos controlados que toma diariamente e passe  a se permitir a beber os vinhos que fora presenteada pelo irmão. A chegada de mais uma visita na casa, aumenta a tensão entre todos, Elisa, a irmã mais nova de Magnólia, e a qual mantém certo distanciamento e certos rancores, o convívio entre as duas não é nada fácil, apesar do amor fraterno que sentem, há um muro invisível que as separa.
A convivência entre os irmãos faz com que desencadeei sentimentos e recordações guardadas. Orlando se encontra alegre e ao mesmo tempo tenso, se isolando na garagem onde pinta seus quadros para uma exposição organizada por Laura a quem tem um flerte e que antipatiza com Magnólia. Laura é uma mulher solteira que faz eventos culturais, o mais recente é a exposição de quadros de pintores locais que será realizado no restaurante de Lorenzo, irmão da mesma e de Tadeu, tio de Elieser, o típico solteirão convicto, um homem encantador que irá despertar uma paixão intensa e atormentar mais ainda os pensamentos de Magnólia.
Os ânimos na casa de Orlando não andam tão animados, as constantes crises de Magnólia afetam toda a família, até mesmo o passivo Herbert já demonstra cansaço e vontade de ir embora, acreditando que não tenha sido uma boa ideia a visita e o reencontro com passado. Durante a exposição dos quadros de Orlando, Magnólia e Lorenzo se beijam e ambos deixam claro o interesse que sentem um pelo outro, alheio a esse encontro Herbert se diverte na exposição, Orlando tem uma discussão com Laura, Tomas e Elieser fortalecem a amizade, Muriel chora pela lembrança da mãe falecida, o que era para ser uma noite de comemorações se tornou uma tormenta para Orlando. Após ver em um dos quadros de outro pintor, imagens que o abalaram profundamente.
Situações tensas iniciam a partir de então, a sobrecarga emocional aumenta rumo a uma espécie de catarse, onde a epifania de personagens conduz a narrativa a uma similaridade com a tragédia. Orlando procura manter um clima ameno para que a irmã mais nova não se sobrecarregue. O grupo de apoio AA faz uma reunião na casa de Orlando, para comemorarem o suposto afastamento da bebida por parte de Orlando. Contar o que vem adiante seria spoiler.
É um livro interessante, a leitura não é cansativa e você pode odiar a princípio cada personagem, mas depois entende que o eles buscam é o mesmo que todos nós buscamos: paz, felicidade e o aconchego da família e dos amigos. Alex Sens é um jovem escritor de sucesso, que com certeza irá atrair diversos leitores que assim como eu, nem um pouco apta a fazer resenhas se sentirão empolgados a falar dos livros desse escritor, seja no gênero drama como este de O frágil toque dos mutilados ou a qualquer outro que venham a ler.
A excelente edição da Autêntica com a capa refletindo a atmosfera da narrativa mostra que o livro de Alex Sens nasceu com potência de um clássico.

Sobre o autor: Alex Sens  é escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O frágil toque dos mutilados, seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Para Drummond. De Mário de Andrade


Na seção Cartas Famosas, trazemos neste mês de agosto a famosa carta de Mário de Andrade ao seu amigo Drummond. Vale a pena e merece nossa atenção.




Andrade em 1928 - Fotografia de Michelle Rizzo
São Paulo, 10 novembro 1924

Meu caro Carlos Drummond

Já começava a desesperar da minha resposta? Meu Deus! Comecei esta carta com pretensão… Em todo caso de mim não desespere nunca. Eu respondo sempre aos amigos. Às vezes demoro um pouco, mas nunca por desleixo ou esquecimento. As solicitações da vida é que são muitas e as da minha agora muitíssimas e… Quer saber quais são? Tenho o meu trabalho cotidiano, é lógico. Lições no Conservatório, lições particulares. Mas atualmente as minhas preocupações são as seguintes: escrever dísticos estrambóticos e divertidos prum baile futurista que vai haver na alta roda daqui (a que não pertenço, aliás). Escolher vestidos extravagantes mas bonitos pra mulher dum amigo que vai ao tal baile. E escrever uma conferência sem valor mas que divirta pra uma festa que damos, o pianista Sousa Lima e eu, no Automóvel Clube, sexta-feira que vem. São as minhas grandes preocupações do momento. Serão desprezíveis pra qualquer idiota antiquado, aguado e simbolista. Pra mim são tão importantes como escrever um romance ou sofrer uma recusa de amor. Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso.

Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impassível eternidade da impressão.

Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste. Eu não posso compreender um homem de gabinete e vocês todos, do Rio, de Minas, do Norte me parecem um pouco de gabinete demais. Meu Deus! se eu estivesse nessas terras admiráveis em que vocês vivem, com que gosto, com que religião eu caminharia sempre pelo mesmo caminho (não há mesmo caminho pros amantes da Terra) em longas caminhadas! Que diabo! estudar é bom e eu também estudo. Mas depois do estudo do livro e do gozo do livro, ou antes vem o estudo e gozo da ação corporal.

Eu neste ponto não aconselho nada porque nisso a gente não se muda por causa de conselhos, mas um dos desastres que impedem a felicidade, que é naturalidade, de vocês está aí: em casa lendo, redação de jornal, café com amigos sobre tal livro, tal escritor, escrever coisas depois, talvez cinemas e depois farra com mulheres. Isso não é vida que se leve! Isso é vício. Está muito bem com todas as outras formas de vida juntas, mas assim sozinhos e continuados é miséria, decadência e infelicidade na certa. É horrível.


Veja bem, eu não ataco nem nego a erudição e a civilização, como fez o Osvaldo num momento de erro, ao contrário respeito-as e cá tenho também (comedidamente, muito comedidamente) as minhas fichinhas de leitura. Mas vivo tudo. Que passeios admiráveis eu faço, só! Mas ninguém nunca está só a não ser especiais estados de alma, raros, em que o cansaço, preocupações, dores demasiado fortes tomam a gente e há essa desagregação dos sentidos e das partes da inteligência e da sensibilidade. Estão a gente fica só por milhões de amigos que tenha ao lado. Se não, não. Um sentido conversa com outro, a razão discute com a imaginativa etc. e é uma camaradagem sublime de pessoas tão íntimas como nenhuns Castor e Pólux ideais. E então parar e puxar conversa com gente chamada baixa e ignorante! Como é gostoso! Fique sabendo duma coisa, se não sabe ainda: é com essa gente que se aprende a sentir e não com a inteligência e a erudição livresca. Eles é que conservam o espírito religioso da vida e fazem tudo sublimemente num ritual esclarecido de religião.

Eu conto no meu “Carnaval carioca” um fato a que assisti em plena avenida Rio Branco. Uns negros dançando o samba. Mas havia uma negra moça que dançava melhor que os outros. Os jeitos eram os mesmos, mesma habilidade, mesma sensualidade mas ela era melhor. Só porque os outros faziam aquilo um pouco decorado, maquinizado, olhando o povo em volta deles, um automóvel que passava. Ela, não. Dançava com religião. Não olhava pra lado nenhum. Vivia a dança. E era sublime. Este é um caso em que tenho pensado muitas vezes. Aquela negra me ensinou o que milhões, milhões é exagero, muitos livros não me ensinaram. Ela me ensinou a felicidade.

Bom! não é preciso ninar a vida pra ser feliz dentro dela e ainda tenho umas coisinhas pra lhe dizer e perguntar. Primeiro você me fala numa carta que escrevi ao Martins de Almeida. Ora eu já escrevi duas e da segunda não veio resposta. Não sabe se ele a recebeu? Se não, fico seriamente triste porque era longa, não era pensada, não, mas era tão minha, dada de coração, e eu me horrorizo de me pensarem ingrato ou indiferente. Ele que me escreva qualquer coisa. A carta foi registrada pra avenida Paraopeba 272. Segundo: li seu artigo. Está muito bom. Mas nele ressalta bem o que falta a você — espírito de mocidade brasileira. Está bom demais pra você. Quero dizer: está muito bem pensante, refletido, sereno, acomodado, justo, principalmente isso, escrito com grande espírito de justiça. Pois eu preferia que você dissesse asneiras, injustiças, maldades moças que nunca fizeram mal a quem sofre delas. Você é uma sólida inteligência e já muito bem mobiliada… à francesa.

Com toda a abundância do meu coração eu lhe digo que isso é uma pena. Eu sofro com isso. Carlos, devote-se ao Brasil, junto comigo. Apesar de todo o ceticismo, apesar de todo o pessimismo e apesar de todo o século 19, seja bobo, mas acredite que um sacrifício é lindo. O natural da mocidade é crer e muitos moços não creem. Que horror! Veja os moços modernos da Alemanha, da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos, de toda a parte: ele creem, Carlos, e talvez sem que o façam conscientemente, se sacrificam. Nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá felicidade. Eu me sacrifiquei inteiramente e quando eu penso em mim nas horas de consciência, eu mal posso respirar, quase gemo na pletora da minha felicidade. Toda a minha obra é transitória e educada, eu sei. E eu quero que ela seja transitória. Com a inteligência não pequena que Deus me deu e com os meus estudos, tenho a certeza de que eu poderia fazer uma obra mais ou menos duradoura. Mas que me importam a eternidade entre os homens da terra e a celebridade? Mando-as à merda. Eu não amo o Brasil espiritualmente mais que a França ou a Cochinchina. Mas é no Brasil que me acontece viver e agora só no Brasil eu penso e por ele tudo sacrifiquei.

A língua que escrevo, as ilusões que prezo, os modernismo que faço são pro Brasil. E isso nem sei se tem mérito porque me dá felicidade, que é a minha razão de ser da vida. Foi preciso coragem, confesso, porque as vaidades são muitas. Mas a gente tem a propriedade de substituir uma vaidade por outra. Foi o que fiz. A minha vaidade hoje é de ser transitório. Estraçalho a minha obra. Escrevo língua imbecil, penso ingênuo, só pra chamar a atenção dos mais fortes do que eu pra este monstro mole e indeciso ainda que é o Brasil. Os gênios nacionais não são de geração espontânea. Eles nascem porque um amontoado de sacrifício humanos anteriores lhes preparou a altitude necessária de onde podem descortinar e revelar uma nação. Que me importa que a minha obra não fique? É uma vaidade idiota pensar em ficar, principalmente quando não se sente dentro do corpo aquela fatalidade inelutável que move a mão dos gênios. O importante não é ficar, é viver. Eu vivo. E vocês não vivem porque são uns despaisados e não têm a coragem suficiente pra serem vocês. É preciso que vocês se ajuntem a nós ou com este delírio religioso que é meu, do Osvaldo, de Tarsila ou com a clara serenidade e deliciosa flexibilidade do pessoal do Rio, Graça, Ronald. De qualquer jeito porque não se trata de formar escola com um mestrão na frente. Trata-se de ser. E vocês por enquanto ainda não são. Responda, discuta, aceite ou não aceite, responda. Amigo eu serei sempre de qualquer forma. Não é a amizade e a admiração que diminuirão, é a qualidade delas.
Amizade triste ou amizade alegre e do mesmo jeito a admiração. Desculpe esta longuidão de carta. Eu sofro de gigantismo epistolar. Como vai o Nava? Vocês não arranjam mesmo um jeitinho de vir passar uns dias em São Paulo? Isto aqui é engraçado. Me avisem antes se um dia se aventurarem até aqui. E até logo. Vou lhe mandar uma cópia do “Noturno”, é só minha irmã ter um tempinho e passará a versalhada a máquina. Olhe, a Estética publicou um poema meu, “Dança”, que eu acho que tem alguma coisinha dentro. Reflita e mande me dizer.

Um abraço do

Mário de Andrade 

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Carta publicada no livro “Carlos e Mário: Correspondência de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade”, editora Bem-Te-Vi.



Fonte:
Biblioteca Mário de Andrade

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

De quando a narrativa deixa-nos órfãos


Quando uma história começa com alguma mudança de residência eu já sei o que poderá acontecer. O último exemplo disso foi com Distância de resgate. Afinal toda mudança demanda alterações na própria vida.




A narrativa de O fim da história (The end of the story, tradução de Julían Fuks, 1.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016, 210 páginas, R$ 44,90) começa quando o personagem principal muda-se para um pequeno vilarejo, onde irá lecionar em uma universidade.  Concomitante a isto ela vai exercer a função de tradutora e continuar seu projeto de escrever o seu romance.

Entremeando o processo de escrita, os meandros da memória e o seu trabalho, vai surgindo uma narrativa no início um pouco confusa, mas coerente que capta a atenção do leitor nas linhas poéticas de uma escritora vencedora de prêmios e traça bem uma linha poética em sua narrativa.

A vida da narradora passa por mudanças quando ela se vê envolvida com um jovem de vida excêntrica e caótica. O sentimento que surge entre os dois logo abala a protagonista, no sentido de confundí-la, de deixá-la ansiosa a procura de algo que ela a priori não julga conhecer bem. Pois ao adentrarmos mais na narrativa acompanhamos como a personagem, mesmo depois de casada, ainda possui uma espécie de fixação pelo jovem.

São as lacunas da memória da protagonista narradora que dão um tom dramático, carregado e denso à história poderosa criada por Lydia Davis. 
Nos rostos da multidão de pessoas que a personagem cruza no dia-a-dia, ela vê o jovem e tenta encontrá-lo a fim de reviver, relembrar o que foi ou não vivido.

É aqui onde os meandros da memória confundem o leitor. Afinal, a memória possui também um poder ficcional. As reminiscências da personagem vão reconstruindo a história e refazendo-a.

Com capítulos curtos, Lydia Davis conduz bem o romance, herotiza momentos do exercício da memória, captura o leitor nas primeiras páginas e nos surpreende com um final que pode frustrar ou satisfazer as expectativas.

Na narrativa de Lydia Davis é quase impossível não nos comovermos, sentirmos uma espécie de empatia pela orfandade na qual a personagem vive à procura de um relacionamento frustrado e idílico, ao mesmo tempo.

O fim da história  destaca-se, sobretudo, por sua fragmentação, pela capacidade de envolver o leitor num drama em que a realidade se mistura com a ficção dentro da ficção e transforma a vida num evento metalinguístico. É ainda, principalmente pela busca por alguém, que nos angustia, enquanto estamos no papel de leitor. Se dos personagens sabemos pouco, muito pouco, ao fim, ficamos sabendo menos ainda das certezas vislumbradas pela narradora.

Delírio, amor, fragmentação, angústia e memória são os elementos que fazem de O fim da história uma narrativa incrível, atual e densa.


Editado pela José Olympio, a capa (in)discreta representa bem a inquietação da narrativa. A tradução de Julián Fuks, autor do excelente A Resistência, aproxima-nos de Davis. Aos leitores que gostam de um drama com fragmentação, história de amores onde a memória é um elemento principal, o livro O fim da história tá super indicado.





SOBRE A AUTORA:

Lydia Davis é escritora e tradutora norte-americana, conhecida por seus contos breves e repletos de humor. Muitos de seus contos contos consistem em micro-narrativas com apenas uma ou duas frases e são difíceis de serem classificados, sendo considerados poemas ou uma algo entre poesia e contos. Ao todo, Davis já produziu dez coletâneas de contos incluindo The Thirteenth Woman and Other Stories (1976), Break It Down (1986) e apenas um romance: The End of the Story (1995). Como tradutora, destacou-se por suas traduções de autores como Marcel Proust e Gustave Flaubert, vencendo diversos prêmios, inclusive o French-American Foundation Translation Prize de 2003.

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